Bruno Faria Lopes
Bruno Faria Lopes 18 de maio de 2017 às 19:54

A (surpreendente) imunidade de Portugal 

Está a acontecer algo notável com a dívida pública portuguesa: as taxas de juro têm vindo a descer ao mesmo tempo que o Banco de Portugal recua nas compras de títulos portugueses.

Melhor: o prémio de risco da dívida portuguesa está a cair mesmo enquanto o maior comprador, perto do limite legal de exposição a Portugal, baixa muito o ritmo das compras. Portugal está a tornar-se relativamente imune ao temido recuo do programa do Banco Central Europeu, uma das grandes forças que tem mantido os juros da nossa dívida (e da dos países da Zona Euro) em valores muito baixos. Não sendo um desenvolvimento definitivo - sobram sempre riscos num país com as fragilidades do nosso - esta é uma evolução muito positiva e contra as previsões mais pessimistas da generalidade do mercado (e de analistas e colunistas, incluindo este a que o leitor dedica estes preciosos minutos). O que justifica esta imunidade portuguesa?

 

Como sempre não há uma explicação simples e única. Nesta altura já não é novidade dizer que o programa do BCE não é o único factor que determina as taxas de juro (no blogue "Desvio Colossal", Pedro Romano já vem alertando para isto há algum tempo). Existem outras forças paralelas: a principal é essa coisa fugidia chamada percepção, o alimento das narrativas flutuantes que vão dominando o mercado.

 

Até aos últimos meses do ano passado, esta percepção jogava contra Portugal. Na Europa crescia a incerteza sobre as eleições na Holanda, em França e na Alemanha - uma incerteza que, pelo menos até às legislativas italianas em 2018, está dissipada. Havia, depois, a incerteza específica de Portugal, com a sua economia estagnada e uma novidade política à esquerda que desagradou no formato e na retórica. Os resultados surpreendentes no défice, os avanços na banca, os números sobre a economia e a solidez do Governo (a par da subida do PS nas sondagens, algo que não passa despercebido lá fora) não chegam para dissolver toda a desconfiança - mas bastaram para anular a narrativa má. O "timing" destes bons resultados, com o programa do BCE já em plena retirada no caso português, foi perfeito.

 

Em cima de tudo isto há outros factores. Há fluxos financeiros que saem dos Estados Unidos e de outros mercados para a Zona Euro e há uma procura global por boas rendibilidades num ambiente de taxas de juro extremamente baixas (a dívida portuguesa é a segunda que mais rende aos investidores a seguir à grega). Outras análises mais sofisticadas podem incluir factores estruturais de longo prazo - a tendência de estagnação económica do mundo ocidental e a perspectiva de que viveremos durante um longo período de tempo com taxas de juro no fundo do poço - mas no mundo financeiro, de percepções e narrativas flutuantes, valorizo as explicações mais simples e gasosas.

 

A expectativa no mercado é de que não haja mais descidas significativas pelo menos até as principais agências de "rating" tirarem Portugal da classificação de "lixo", acção que alargaria o círculo de investidores. Essa é a batalha prioritária de Mário Centeno. Para isso é preciso ver o rácio de dívida a diminuir (o Governo planeia fazê-lo largamente à boleia da economia) e esperar que a Europa e os Estados Unidos não estraguem a fotografia. Isto só será claro no próximo ano. Até lá respira-se de alívio perante esta imunidade ao recuo do BCE - com a certeza de que a vulnerabilidade do país não desapareceu e de que o risco, embora mais distante, continua a espreitar lá à frente, depois da curva.

 

Jornalista da revista Sábado

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