Alexandre Real
Alexandre Real 26 de fevereiro de 2018 às 19:20

A taxa de desemprego não é importante! Esta e outras tendências… 

Se tudo muda, porque é que não podemos mudar a noção de importância do trabalho? Há vários séculos que temos vindo a assistir a várias revoluções no contexto organizacional.

O que mais surpreende é que a sociedade e todo o modelo organizacional tem uma enorme dificuldade em antecipar-se. Exemplo claro do que estou a mencionar é a existência de cursos profissionais ou superiores que preparam alunos para profissões que irão desaparecer, ou então, professores que ensinam temáticas baseadas nos anos 90 do século passado.

 

Em tempos escrevi que as profissões irão acabar e que é fundamental as pessoas investirem na construção de um mapa de competências flexíveis e adaptáveis a várias necessidades do mercado de trabalho. Mesmo que nem todas as profissões acabem, é certo que algumas irão desaparecer, e mesmo as que não desaparecerem sofrerão mutações enormes. Por exemplo, na medicina, hoje temos supercomputadores que são muito mais fiáveis a diagnosticar doenças do que os médicos humanos. Para um médico que não esteja preparado para lidar com esta revolução será certamente muito penoso, ou seja, os bons médicos do futuro serão muito bons a lidar com as novas tecnologias e a aceitar que sejam suas aliadas e não enfrentá-las como concorrentes.

 

Paralelamente a esta revolução, assistimos diariamente a intervenções de alguns sindicatos que estão completamente desajustados da realidade das novas tendências do mundo do trabalho; no futuro será mais importante um menor poder reivindicativo e uma maior astúcia na preparação do futuro das profissões sindicalizadas. Vejo poucos sindicatos a investirem em investigação e desenvolvimento, ou em colaborarem com as organizações para aumentar a produtividade em Portugal. Sim porque os sindicatos deverão interiorizar que hoje o contexto internacional é o seu grande adversário e não as organizações nacionais.

 

De que vale estarmos sempre a olhar para a taxa de desemprego de um país se o emprego não representar um trabalho digno e de qualidade. Vejamos este exemplo: alguém que não gosta do trabalho que tem, que mensalmente ganha seiscentos euros e que na deslocação diária entre casa e trabalho e vice-versa gasta quatro horas… além de gastar com o seu trabalho doze horas, esta mesma pessoa está privada da sua família e com o ordenado que recebe é difícil ter uma vida digna…. No entanto esta mesma pessoa contribui para uma taxa de desemprego baixa.

 

É mais importante a taxa de desemprego ou a taxa de felicidade?

 

É muito interessante o exemplo do Butão, um país que tem um Ministério da Felicidade e que, além do cálculo do Produto Interno Bruto, calcula a Felicidade Interna Bruta.

 

Outra questão atual é a crescente utilização da inteligência artificial que ditará o fim de muitas profissões. A solução preconizada poderá ser os robôs que "furtam" postos de trabalho começarem a pagar imposto do género "Imposto de rendimento tecnológico". Com este recurso, o Estado poderá financiar quem por opção não queira trabalhar.

 

Existe uma dicotomia no ser humano. Há pessoas que são felizes porque trabalham enquanto outras não gostam mesmo de trabalhar e não acrescentam valor no que fazem. Quem não gosta de trabalhar está no seu pleno direito.

 

Há que assumir que o trabalho não traz felicidade a todas as pessoas, e neste sentido a taxa de desemprego não é assim tão importante. O que deveria interessar é a taxa de felicidade das pessoas.

 

Gestor e Professor Universitário

 

Artigo em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

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mais votado Anónimo 26.02.2018

O trabalho por si só, em particular o assalariado, já não é uma boa medida para aferir a saúde de uma economia nem a sua evolução à escala temporal, mas antes o trabalho e o capital sejam medidas mais correctas, porque para além dos salários pagos a quem oferece factor trabalho com procura no mercado de trabalho, os agentes económicos, especialmente quanto mais desenvolvida for a economia onde residem, obtêm cada vez mais rendimentos e criam cada vez mais valor através dos lucros, rendas, mais-valias, dividendos, propriedade intelectual e juros (que podem ser negativos), que constituem cada um deles o objecto do seu respectivo mercado.

comentários mais recentes
Anónimo 01.03.2018

A situação de pré-bancarrota vivida por Portugal e Grécia foi nada mais do que o reflexo de uma enorme bolha especulativa no mercado de trabalho que teve de rebentar tal era o inchaço. Parece que nesses mesmos países, por obra e (des)graça de esquerdas e sindicatos, já se está a formar outra.

Anónimo 27.02.2018

Os comentários a este artigo são do melhor que aqui se faz.
Gostei de ler todos eles que penso ter sido escritos pela mesma pessoa.
Muito, muito bom.

Se de 10% Desemprego se passar para 10% empregodos 27.02.2018

na população activa pt (e mundial), os Estados têm de ter uma solução para os outros 90%. Comentários do anonimo abaixo, que tendo razão não se pode extremar, senão quem pode trabalhar 40 anos até aos 67? TODOS mesmo sendo bons ,envelhecendo terão novos bons a tirar o tapete, antes de 40de trabalho

Anónimo 27.02.2018

Em organizações públicas e privadas do mundo mais desenvolvido, no âmbito da gestão das organizações faz-se gestão de recursos humanos (GRH). Sem GRH, nem criação de valor ocorre nem elevação dos rendimentos de colaboradores não excedentários se dá, uma vez que os excedentários, por definição, limitam-se a extrair valor. Economias com GRH enriquecem e desenvolvem-se de forma sustentável. Ser excedentário não significa por si só que se seja criminoso ou mesmo incompetente. Ser excedentário é como estar na condição de desempregado mas a ser suportado por uma organização que emprega o desempregado. O desempregado e o excedentário são apenas uma oferta sem procura, e isso não é crime, crime é não fazer GRH. O desempregado, sem procura no mercado laboral onde oferece trabalho. O excedentário, sem procura numa dada organização empregadora que tem que o suportar prejudicando a persecução da sua missão, visão e propósito. Ambos são um problema do Estado de Bem-Estar Social e não do empregador.

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