Paulo Carmona
Paulo Carmona 15 de agosto de 2018 às 19:30

A vender as joias

O mais grave disto tudo, e que esta compra por estrangeiros dos nossos melhores ativos imobiliários vem destapar, é o empobrecimento relativo de Portugal face à média europeia nos últimos 20 anos.

A FRASE...

 

"Se o código de 'booms' e crises finalmente puder ser decifrado, pode haver maneiras de os bancos centrais, reguladores ou outros formuladores de políticas evitarem crises antes de elas começarem, em vez de enfrentarem as consequências depois."

 

Noah Smith, Negócios, 5 de agosto de 2018

 

A ANÁLISE...

 

Considerações sobre a bolha imobiliária e de ações são o tópico de momento com os pés na areia. E logo o termo bolha é trazido por algum calor de argumentação.

 

Se Portugal fosse uma economia fechada, seria talvez possível falar duma bolha especulativa, dada a estagnação do rendimento dos portugueses desde o início do século. Foram estrangeiros os factores determinantes para essa subida. As políticas bem-sucedidas como o visto "gold", a montagem em Portugal de um off-shore fiscal para reformados de países europeus e as atuais políticas de captação de refugiados do Brexit foram cruciais na captação de capital e rendimentos para um país excessivamente endividado. Entretanto, a elevada procura de ativos imobiliários e a reduzida oferta teve esse efeito rápido de subida. Uma súbita riqueza de quem tem casa e uma penalização para quem arrenda ou procura habitação. E a boa divulgação de Portugal como destino turístico, que favoreceu hotéis e alojamentos locais, com estes últimos a potenciarem a compra e a reabilitação de prédios, colocou ainda maior pressão num mercado já "aquecido". O imobiliário português deixou de ser uma "pechincha" em termos europeus para se nivelar estabilizar aos níveis actuais. Falta o Estado acalmar o mercado, disponibilizando parte dos 4.500 imóveis devolutos, segundo o Observador, ou mudando serviços do centro de Lisboa para Parques no Lumiar ou em Telheiras, detidos pelo IAPMEI, por exemplo.

 

O mais grave disto tudo, e que esta compra por estrangeiros dos nossos melhores ativos imobiliários vem destapar, é o empobrecimento relativo de Portugal face à média europeia nos últimos 20 anos. Ou seja, enquanto os estrangeiros europeus enriquecem, nós estagnamos vergonhosamente. Mesmo com a vizinha Espanha, com quem partilhamos clima, fronteiras e crises, conseguimos baixar de 76% do rendimento médio do país vizinho para 64% hoje, e a alargar todos os anos pois crescem mais do que nós…

 

Quanto à bolsa de acções, segue o seu caminho, desafiando os mais sensatos. Com as taxas de juro do dólar a subir, guerras comerciais em perspectiva, um Trump indomável, sobe, sobe, balão sobe. Chiu, não acordemos o diabo, senão voa tudo…

 

Artigo em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

 

Este artigo de opinião integra A Mão Visível - Observações sobre as consequências directas e indirectas das políticas para todos os sectores da sociedade e dos efeitos a médio e longo prazo por oposição às realizadas sobre os efeitos imediatos e dirigidas apenas para certos grupos da sociedade.

maovisivel@gmail.com

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