João Carlos Barradas
João Carlos Barradas 20 de fevereiro de 2018 às 19:27

A violação das massas pela internet

Evgeni Prigojin, empresário da restauração, "catering", propaganda e outras artes, nado, criado e alcandorado a milionário em São Petersburgo, surge como o espírito maléfico por trás da operação de manipulação russa das eleições presidenciais nos Estados Unidos.

Desde pelo menos 2014 um grupo ligado a Prigojin, conterrâneo e amigo pessoal de Vladimir Putin, terá criado sites, aberto contas com identidades falsas no Facebook, Twitter entre outras plataformas, e efectuado financiamentos ilegais de acções de propaganda no intuito de criar instabilidade nos Estados Unidos, segundo investigação conduzida por Robert Muller.

A Agência de Investigação da Internet (Glavset) de Prigojin, referida pela primeira vez em 2013 nos media russos como envolvida em acções de propaganda e contrapropaganda digitais, terá manipulado subrepticiamente cidadãos norte-americanos, sem consciência informada da sua participação em actos ilegais, de acordo com o inquérito do conselheiro especial do departamento de justiça.

Hillary Clinton, centro do desprezo e ódio declarados de Putin, surgiu como alvo principal das acções de desinformação no decurso da campanha para a eleição de 2016 e Donald Trump acabou como beneficiário inesperado, mas, independentemente de outras operações conduzidas por agências estatais russas, acentuar a cizânia política era o fito fundamental desta cabala.

 

"Tullius Detritus goes to Washington"

 

Degradada pela má-fé e protagonismo desvairado de Donald Trump, a trágica farsa em exibição poderia ter como título irónico "Tullius Detritus goes to Washington" - evocando o filme de Frank Capra (1939) e a "Cizânia" de Goscinny e Uderzo (1970) -,  só que as implicações alastram para o vasto, expansivo e permissivo universo digital e assumem tons sinistros.

 

O leque de pressões por via política, económica e financeira, potenciando actos ilegais, acções subversivas por ameaça ou uso de força contra alvos tão diversos quanto infra-estruturas, redes de energia ou sistemas de saúde, convulsiona a internet.

 

Os oligopóligos Amazon, Google, Facebook - sediados nos Estados Unidos -, Baidu, Alibaba, Tencent - oriundos da China -, são faces visíveis de imensa concentração de transacções, dados pessoais e empresariais.

 

Para obstar à emergência de concorrência o poder destes conglomerados tenderá a aumentar graças à crescente conexão internet de objectos e transacções abrindo caminho à contestação de princípios de neutralidade e auto-regulação.

 

Soberania de Estado alargada ao controlo de servidores, acessos e transacções de capitais, mercadorias e informação no universo digital é genericamente aventada por Estados como a China e a Rússia, privilegiando censura ao invés da opção de cooperação e controlo de delito mediante acerto legal internacional, punição ou interdição pelos códigos nacionais vigentes.   

 

Facebook é caso flagrante de incongruência e susceptibilidade a manipulações devido ao estatuto ambivalente que tenta preservar de canal neutro de transacção de mensagens (representando o alegado conteúdo noticioso cerca 5% do fluxo de contactos e mensagens), ainda que recolha provento publicitário por interacções indiferenciadas derivadas de particulares, empresas, instituições públicas e privadas.     

 

China e Canadá optaram, entretanto, em Junho, por um acordo formal interditando ataques cibernéticos por via de entidades estatais, abarcando informação empresarial, mas a valia do entendimento aguarda prova.

 

Na abrangente anarquia digital, propiciada pela indefinição de imposições universais, legais e de facto, as propagandas vão, entretanto, valendo-se de chavões, palavras de ordem, símbolos taxativos, numa lógica clássica de valor provado alimentada por maldições, arrebatamentos e exigências prementes.

 

O digital e o tangível

 

Propaganda assente em simplicidade unívoca, dogmática, incontroversa, simplória, rebarbativa, omnipresente, propicia o condicionamento, na base de reflexos condicionados, na tese que fez época de "A Violação das Massas pela Propaganda Política", obra marcante do social-democrata russo, Serguei Tchakotin, nos anos da Segunda Guerra Mundial.

 

Numa veia radical outros acentuaram o tom apocalíptico à medida que, posteriormente, a televisão alargava uma putativa influência perniciosa, caso do austríaco Karl Pooper e do italiano Giovanni Sartori, e, na era digital, miramos um abismo inaudito de manipulações.

 

Inevitavelmente tudo o que gira na internet acaba por ter um impacto tangível e, compreensivelmente, Evgeni Prigojin criou, também, o Grupo Wagner, as hostes militares mercenárias ao serviço de Moscovo na Ucrânia e na Síria.  

 

O Tullius Detritus do Kremlin semeia a cizânia e não dispensa a espada.  

 

Jornalista

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comentários mais recentes
Alentejano 26.02.2018

keep
it
simple
stupid
de certeza que não consegue tornar o texto um pouco mais acessível a pelo menos 10% dos leitores em vez de o manter uma salganhada que provavelmente somente historiógrafos da ciência politica russa conseguem perceber o intento do mesmo?

Alentejano 26.02.2018

sendo eu uma pessoa bem formada com uma média de leitura de 52 livros com 400 paginas no mínimo em termos anuais, uma cultura geral acima da média e um coeficiente de inteligência 2 desvios padrões acima da média e ainda assim fiquei siderado pela minha incompreensão da verborreia descrita (kiss)

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