Outros sites Cofina
Notícias em Destaque
Opinião
Rui Peres Jorge rpjorge@negocios.pt 01 de Março de 2015 às 19:30

A vitória da Europa com o acordo grego

São tempos de negociações duras e perigosas. Tsipras tem de mostrar boa fé, um plano articulado de reformas, e uma estratégia orçamental que suavize a austeridade sem impor perdas aos contribuintes fora da Grécia. E a Europa não pode desperdiçar a oportunidade de melhorar a sua estratégia anti-crise que em nenhum lado como na Grécia falhou tão espectacularmente.

  • Assine já 1€/1 mês
  • 6
  • ...

 

Embora mantendo uma pressão financeira demasiado arriscada sobre a Grécia, o acordo entre o novo governo de Alexis Tsipras e os restantes países da Zona Euro é, por enquanto, uma vitória da Europa e uma derrota de radicalismos fáceis alemães e gregos. Foi um passo, ainda que pequeno, na direcção certa. E não era assim tão fácil.

 

Não devemos subestimar a desconfiança entre partes radicais tão diferentes quanto os ordoliberais alemães (e os seus satélites onde se inclui o governo português) para as quais não houve erros nos últimos anos, e a esquerda radical que diaboliza a troika e as suas opções que chega a classificar de anti-europeias. O acordo do Eurogrupo de 20 Fevereiro e os posteriores compromissos de reforma por parte de Atenas são, por isso, inevitavelmente vagos. Mas ainda assim positivos. Senão vejamos.

 

Os gregos ganharam tempo para se preparem (que bem precisam dada a forma errática como se apresentaram nas últimas semanas e o fraco conhecimento que têmda máquina pública grega e da burocracia europeia) e garantiram margem para novas metas orçamentais – uma pretensão mais que razoável. E se tiveram de fazer marcha-atrás em boa parte da sua retórica, conseguiram ainda assim introduzir no debate sobre reformas as opiniões de instituições além da troika, com destaque para a Organização Internacional do Trabalho.

 

Do lado europeu, também há sinais positivos. A Comissão Europeia esforçou-se por apoiar um entendimento difícil à partida, e reforçou a importância política de respeitar tanto os acordos anteriores, como os eleitores gregos. O BCE fez voz grossa a Varoufakis, mas garantiu o financiamento mínimo à banca grega, condição necessária para que as negociações continuem; e Berlim também cedeu: ainda que só depois da intervenção de Sigmar Gabriel (o líder do SPD, partido que faz coligação com a CDU), Angela Merkel acabou por suavizar o "pegar ou largar" de Wolfgang Schäuble, aprovando a extensão do programa mesmo, com promessas vagas gregas.

 

O acordo oferece quatro valiosos meses e será avaliado no final de Abril para decidir a libertação de 7,2 mil milhões de euros. Um falhanço sobre um novo programa para a Grécia a partir de Junho poderá ser desastroso. Até lá, e sem mais dinheiro, uma corrida aos bancos gregos é um risco, assim como atrasos de pagamentos do Estado grego ao FMI ou em despesas internas. Qualquer destes eventos poderia precipitar uma saída da Grécia da Zona Euro, nas piores condições e com consequências imprevisíveis.

 

São tempos de negociações duras e perigosas. Tsipras tem de mostrar boa fé, um plano articulado de reformas, e uma estratégia orçamental que suavize a austeridade sem impor perdas aos contribuintes fora da Grécia. E a Europa não pode desperdiçar a oportunidade de melhorar a sua estratégia anti-crise que em nenhum lado como na Grécia falhou tão espectacularmente.

Ver comentários
Mais artigos de Opinião
Ver mais
Mais lidas
Outras Notícias