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Virgínia Trigo 09 de Agosto de 2011 às 12:19

A arte de beber "maotai" ou como negociar na China

Foi em 1989, numa das minhas primeiras visitas à China que, em Xian, à volta de uma grande mesa redonda com dez outros convivas

Foi em 1989, numa das minhas primeiras visitas à China que, em Xian, à volta de uma grande mesa redonda com dez outros convivas, pela primeira vez e sem qualquer aviso prévio, tomei contacto com o "maotai", a bebida alcoólica mais famosa e mais amada pelos chineses. Foi uma experiência devastadora. Enquanto iam surgindo os diferentes pratos, mais de 31, uns pequenos pastéis cozidos a vapor deliciosos e que se comiam de uma só vez sempre precedidos de uma maravilhosa e enigmática história contada em mandarim por uma linda menina que segurava as iguarias numa travessa coberta para de seguida a destapar num gesto teatral como se antecipasse a revelação de um tesouro, todos nos levantávamos, em cada um dos 31 intervalos, para segurar um minúsculo copo com uma bebida transparente de cheiro nauseabundo e, engolindo-a de uma só vez, brindávamos à amizade entre os nossos países, entre os povos, entre nós próprios e por fim ao assunto que nos trouxera ali naquele dia.

É difícil descrever o sabor do "maotai" a quem nunca o provou: é algo elusivo, que começa em terebintina e vai mudando subtilmente do primeiro ao último golo até porque, entretanto, felizmente as nossas papilas gustativas adormeceram. Nesse dia em Xian, um canadiano a meu lado, de ar já de si sofredor e, tal como eu, apanhado de surpresa com uma bebida de 53 graus entre as mãos, de cada vez que a erguia murmurava "Oh boy! Oh boy! "como se avançasse lentamente para o cadafalso. Lembro-me também do ar apopléctico de Richard Nixon numa foto da sua histórica visita à China, em 1972, quando brindava entre Mao Zedong e Zhou Enlai com um copo de "maotai". Como eu o compreendo!

Pouco depois dessa minha primeira experiência em Xian, algumas horas mais tarde, sem me lembrar muito bem de como tinha chegado ao hotel, ainda haveria de experimentar um outro efeito dessa inefável bebida: os "suores do "maotai"". Por todos os poros do meu corpo, o aroma do "maotai" exalava. Nos anos que se seguiram desenvolvi um entendimento agudo de que o meu fascínio pela China só se poderia traduzir em algo de concreto se eu desenvolvesse, e depressa, a arte de beber "maotai". Elevada por Zhou Enlai à categoria de bebida nacional, o "maotai", oriundo de uma pequena cidade homónima da província de Guizhou, famosa pela qualidade da sua água, alimentou e deu ânimo aos soldados durante os 18 meses da Longa Marcha e, generosamente distribuída em banquetes, é hoje um elemento indispensável no fortalecimento de relações apesar do seu preço elevado. Em mandarim, a palavra "estudar" utilizada por exemplo na frase "vamos estudar a sua proposta" diz-se "yanjiu" que tem um som muito semelhante a uma outra que significa literalmente "cigarros e álcool" sugerindo a necessidade destes ingredientes auspiciosos em qualquer transacção. "Quando nos encontramos com amigos, mil copos não são suficientes", diz um ditado chinês e é por causa disso, porque só o "maotai" (ou os seus outros primos produzidos na província de Sichuan) consegue fazer-nos revelar a nossa verdadeira personalidade, ajuda a estabelecer uma plataforma de comunicação baseada na sinceridade e a fortificar toda e qualquer interacção social, é preciso que cada copo seja bebido de uma só vez, bem até ao fundo e depois mostrado vazio ao nosso amigo numa prova de coragem e cordialidade.

Uma vez versados na arte de beber "maotai" ser-nos-á possível não apenas desenvolver negócios profícuos com os nossos amigos chineses, mas talvez mais importante, estabelecer relações duradouras para muitas outras coisas úteis e importantes na vida. Esta arte pressupõe não só toda uma forma de saber brindar e beber, mas também o entendimento da complexa estrutura relacional chinesa que se reconhece no contexto de um banquete através de quem faz o brinde a quem, quem bebe por quem e quando. Por mim, pude finalmente ser recompensada pelo domínio dos rudimentos da arte de beber "maotai", quando, ao fim de mais de 20 anos de trabalho na China, em três eventos diferentes, o suficiente para se estabelecer um padrão, alguém se ofereceu para beber "maotai" por mim dando assim algum descanso não só às minhas papilas gustativas mas também ao meu cérebro na ideação das múltiplas e sempre novas tácticas que fui desenvolvendo ao longo dos anos. Quem poderá avaliar a satisfação desta recompensa?



Professora no ISCTE Business School
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