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A banca do nosso descontentamento

A banca foi a origem dos problemas que as economias desenvolvidas hoje enfrentam. E promete ser o principal obstáculo à recuperação económica.

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A banca foi a origem dos problemas que as economias desenvolvidas hoje enfrentam. E promete ser o principal obstáculo à recuperação económica. Passou de uma política displicente e irracional de concessão de crédito, que provocou a crise, para uma via de aperto no financiamento às empresas pela quantidade e pelo preço que ameaça virar-se, também, contra si. Claro que a responsabilidade de tais políticas são dos governos, das políticas anteriores à crise e das políticas que escolheram para resolver a crise.


Durante a última semana subiram de tom as críticas do primeiro-ministro à banca. Depois de Pedro Passos Coelho ter criticado, no sábado dia 13 de Abril, a restritividade na concessão de crédito, os banqueiros vieram ao espaço público responder a Pedro Passos Coelho. A mensagem que deixaram foi basicamente a mesma de outras alturas em que o tema veio para a praça pública: não há procura de crédito. E aquela que existe é satisfeita.


O argumento da falta de procura de crédito é combatido contra-argumentando com os números: como pode a quantidade procurada diminuir - a procura de financiamento - e o preço subir - a taxa de juro? O primeiro-ministro, no debate quinzenal de sexta-feira, 19 de Abril, acabou por explicar esta discrepância argumentando que a ausência de procura se deve às elevadas taxas de juro, o que corresponde às queixas dos empresários. Se usarmos as ferramentas clássicas das curvas da procura e da oferta, a subida do preço com redução da quantidade só é, de facto, consistente com uma deslocação da curva da oferta para a esquerda, ou seja, e simplificadamente, com uma redução da concessão de crédito.


A questão que se coloca é: porque está a banca a restringir a oferta de crédito, ou seja, porque se deslocou a curva da oferta para a esquerda? A falta de recursos não é argumento - eles existem e a ajuda do Estado à banca, com dinheiro da troika, foi concretizada quer para dar mais solidez à banca como para que não ocorresse esta restritividade no crédito. Aliás, uma das contrapartidas desse apoio foi o financiamento à economia.


Restam dois argumentos, um e outro com racionalidade suficiente para explicar o que se passa. O primeiro é usado pela ala do governo e acusa a banca de estar a restringir o crédito com o aumento dos juros por se estar a focar na rentabilidade, designadamente na recuperação de lucros passados. Uma explicação que tem uma racionalidade reforçada se levarmos ainda em consideração que os bancos se queixam do preço - demasiado elevado - que têm de pagar pela ajuda que receberam. E, por isso, querem pagar o mais depressa possível essa ajuda. O segundo elemento de racionalização do comportamento está no risco que a economia portuguesa ainda tem, com uma incerteza que é inimiga do investimento e da concessão do crédito.

 


helenagarrido@negocios.pt

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