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Frederico Bastião 12 de Março de 2004 às 14:50

A Bolsa de Lucas

Tenho andado muito contente com o recente dinamismo do nosso mercado de capitais. O ano passado sempre que abria os jornais e ia ver as cotações dos meus PPAs e PPRs, ficava logo mal disposto e ia amargurado para a Escola.

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Tenho andado muito contente com o recente dinamismo do nosso mercado de capitais. O ano passado sempre que abria os jornais e ia ver as cotações dos meus PPAs e PPRs, ficava logo mal disposto e ia amargurado para a Escola.

Com a Bolsa a cair todos os dias, lá se iam as minhas poupanças. Este ano, ao menos, tem sido uma festa. As cotações sobem e vou ficando mais rico. Esta minha paixão pela Bolsa ganhei-a em miúdo, a jogar monopólio com a minha irmã Manela.

É verdade que eu quase sempre perdia. Ela era uma jogadora feroz, sempre com ideias novas.

Um dia – lembro-me como se fosse hoje – tinha eu comprado a Rua Augusta e a Rua do Ouro e preparava-me para colocar um prédio em cada uma, quando ela me disse: “Frederico, tens que pagar o imposto de construção”.

Como não tinha lido as instruções, paguei e fiquei sem dinheiro para os prédios. Outra vez, convenceu-me a comprar-lhe uns terrenos que tinha hipotecados pelo dobro do seu valor, prometendo que mais tarde lá construiria uma casa.

Doutra vez ainda, estava ela sem dinheiro, caiu num hotel meu e levantou metade da banca titularizando a Prisão e a Caixa da Comunidade. Jurou-me que estava nas regras.

Foi então com ela que aprendi as vantagens da informação – informação é poder, à condição de a usarmos e não a darmos a outros. E foi com ela que fiquei com a paixão da Bolsa.

Em 1987 safei-me bem. À moda da Manela, quando a Bolsa começou a cair despachei o meu “papel” à malta conhecida, explicando que era coisa passageira, era só não comprar gato por lebre. Já o ano passado foi uma tristeza, não se conseguia vender nada a ninguém.

Perdemos todos uma pipa de massa. Porquê? Robert Lucas explica-nos que os investidores são racionais e incorporam as suas percepções sobre a política económica no seu comportamento.

Aprendem com o passado e usam a informação disponível no presente, não sendo enganados com facilidade – alterações de política só têm efeitos no seu comportamento desde que nelas acreditem.

Assim se compreende tudo: O governo prometeu o choque fiscal; os investidores não acreditaram e não investiram, a bolsa não subiu. O governo não cumpriu o choque fiscal: os investidores eram racionais.

E como explicar os recentes desenvolvimentos bolsistas? Diz o primeiro ministro que foi graças às políticas do governo. Então o governo só começou a governar agora?

Resolvi dedicar o meu valioso tempo a esta valiosa questão e descobri uma blue chip na revista Financial Studies for Banana Republics: um estudo do zairense Eukassou Bomdabola, intitulado “The Zigzag Theorem: On Transparent Financial Markets and Fuzzy Governments”, analisando o comportamento dos mercados financeiros quando os governos estão permanentemente a efectuar alterações na sua política económica.

Bomdabola admite que nas campanhas eleitorais, sendo hoje cada vez mais difícil distinguir os partidos pela ideologia, estes tendem a marcar a diferença pelas promessas.

Há assim um leilão em que cada um promete mais, mesmo sabendo que não pode cumprir, pois a alternativa é perder. Logo, qualquer Governo recém empossado não só não vai cumprir o que prometeu na campanha eleitoral como vai fazer o contrário.

Daqui decorre o Teorema do Ziguezague: os investidores esperam que qualquer novo Governo faça o contrário do que prometeu. A promessa da consolidação orçamental não teve impacto na bolsa porque o mercado não acreditou.

E o que acontece à medida que o tempo de governação vai passando? Na International Review of Lies, Politics and TV Broadcasts, o finlandês Partuh Tacara responde no artigo “Political Promises: Only Pain Is Real”.

Colocado numa armadilha em que tem que fingir que ele próprio acredita nas promessas que fez, o político que ganha eleições desenvolve uma estratégia assente em três pilares:

> Primeiro, afirma que há promessas que não podem ser cumpridas por causa da herança do governo anterior;

> Segundo, faz uma coligação; cada umdos parceiros escolhe do seu programa o que não pode fazer e diz que tal resulta de cedências para formar a coligação;

> Terceiro, naquilo que não consegue colocar nas categorias anteriores, reafirma as promessas mas adia-as, de preferência para depois das próximas eleições.

Mas porque é que a Bolsa subiu agora? Este enigma foi resolvido pelo grego Tóka komprar Seus toullos, no paper “Politics and Economics: How to Put Lipstick on a Bulldog”, publicado na revista Ekonotétrika.

Seus toullos estuda o caso português, onde detecta um original quarto pilar: não podendo dar o dito por não dito, só resta ao governo uma solução, insistir em que está cumprir o prometido apesar de não estar, prosseguindo na mesma linha.

Resulta daqui o Teorema de Seus toullos: a melhor estratégia para o povo, se é racional à la Lucas e se quer que seja mudada esta política que o governo persiste em fingir que está a fazer, é fingir que acredita no governo e considerar a promessa cumprida.

Pode então o governo passar a fazer outra coisa. Está explicada a subida da bolsa portuguesa: o governo tanto insiste que está a realizar a consolidação orçamental e que o choque fiscal está a começar que os mercados resolveram fingir que acreditam.

É isto, meus caros leitores, que mostra a genialidade do nosso PrimeiroMinistro, que desta forma fez o PSI 20 subir para níveis inimagináveis, batendo as bolsas mundiais.

Imaginem o que seria se ele, além de Primeiro Ministro de Portugal, fosse Presidente da Comissão Europeia e Presidente dos Estados Unidos: nada seguraria as bolsas mundiais, que subiriam qual foguetão Ariane.

O mundo teria uma expansão económica jamais sonhada e todos ficaríamos mais que ricos.

Frederico Bastião é Professor de Teoria Económica das Crises na Escola de Altos Estudos das Penhas Douradas. Quando lhe perguntaram se ganhou dinheiro com a Bolsa respondeu: “Apenas com a da minha tia Alice.”

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