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A Bolsa é um peditório

Se um ministro das Finanças corta um benefício fiscal a um produto de poupança ou de investimento, o pessoal revolta-se, é um «ai-Jesus-credo», estamos perante um ataque indigno ao mercado de capitais. Mas se um ministro da Economia conduz um processo de

Num caso ou noutro, seja aliás em qualquer caso, Portugal é o único país da Europa em que a conversa começa no mercado e acaba sempre no Estado. É impressionante. Mas é assim.

Se não há investidores, é porque faltam incentivos. Se não há empresas cotadas, é porque não se privatiza.

Enfim, a bolsa está moribunda, porque os portugueses conseguiram escrever nos últimos anos um guia prático de «Como matar um mercado de capitais, sem piedade». Cada capítulo um homicídio, de autores diferentes.

Os empresários e gestores, mesmo os grandes, aliás a começar por eles: todos têm medo do mercado. São até profundamente anticapitalistas. Estatutos blindados e limitações de votos. «Free floats» insignificantes para que o poder nunca fique à mercê dos investidores. Administradores mais poderosos que accionistas. Já não falando das famosas «golden shares» públicas.

Tudo isto se resume a uma mensagem: «deixem-nos em paz». Os investidores não vão naturalmente para sítios onde não são bem-vindos.

Os ministros e os governos, mesmo aqueles que se dizem mais liberais, principalmente estes, que se elegem com programas cada vez menos intervencionistas: nenhum resiste à tentação de revolucionar um sector inteiro, para lhe deixar a sua marca com uma magnífica reestruturação: são «os soviéticos», como lhes chama Belmiro.

Na primeira parte deste Governo, a doutora Ferreira Leite não entendia as empresas e deixava o seu colega Tavares estragar tudo sozinho. As empresas, os sectores e, já agora, o mercado. Portucel, Galp, EDP, Transgás, REN... Tanta reestruturação em tão pouco tempo, tantas empresas tão importantes, e tudo feito fora do mercado.

Resta, nesta cadeia de culpados, a complacência geral. Ninguém se indigna, de facto, com aquilo que é realmente importante. Aquilo que, parágrafo a parágrafo, capítulo por capítulo, vai escrevendo o livro da morte da bolsa se Lisboa.

Teixeira dos Santos veio quebrar essa regra de silêncio insurgindo-se contra o Orçamento de Estado. E os PPR, os PPA, enfim, porque é que não nos surpreende?, a lamúria inevitável de que o fim dos incentivos dão mais uma machadada no combalido mercado que ele regula.

E o presidente da CMVM regula bem. Só fala no tempo errado. Ou pelas razões menos importantes.

Não falou quando o ministro Tavares andava a brincar ao monopólio com grandes empresas portuguesas, ligando rigorosamente nada ao mercado.

Não falou quando, já com Santana, o ministro das Finanças admitiu «nacionalizar» o fundo de pensões da CGD – isso sim, uma verdadeira bomba nuclear lançada sobre o mercado, pois significa na prática eliminar um dos maiores investidores institucionais na nossa praça.

Mas criticou abertamente o fim de incentivos fiscais, que é aquilo que o mercado de capitais menos precisa em Portugal. Transparência e capitalismo. Não subsídios e voluntarismo.

Há muito que BVL deixou de ser a Bolsa de Valores de Lisboa. No dia em que significar Bombeiros Voluntários de Lisboa, em Paris alguém se há-de lembrar de a fechar. A Euronext é um mercado, não um peditório.

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