Bruno Faria Lopes
Bruno Faria Lopes 29 de agosto de 2016 às 20:50

A Caixa tem de ser pública por causa dos privados

A Caixa Geral de Depósitos já absorveu desde 2002 mais de 8,4 mil milhões de euros de dinheiro dos contribuintes. É muito dinheiro, diz quem não gosta de ter a Caixa nas mãos do Estado.

Difícil de discordar. É muito mais do que os 2,5 mil milhões que a Caixa devolveu ao Estado em dividendos no mesmo período. A diferença, cerca de seis mil milhões, é o dobro daquilo que o Estado gasta em segurança pública num ano - ou quase 90% do que gasta em educação.

 

Ninguém gosta de pagar tanto - e ninguém gosta de pagar quando ouve histórias sobre financiamentos a privados para comprarem acções, estratégias irreflectidas para Espanha, posições accionistas em empresas como a PT, ou seja, coisas que nada têm a ver com o que pensamos ser a missão de um banco público.

 

Quem quer ver a Caixa nas mãos de privados sublinha este papel de câmara de traficâncias entre a política e a finança na pequena corte lisboeta - e soma o facto de a Caixa, com a restrição europeia que sobre ela impende, ter de se comportar na prática como um banco privado. Pergunta-se então: se o banco público tem de ser gerido como um privado, se tem deixado instrumentalizar-se pelo poder político e se custa milhares de milhões de euros aos contribuintes, faz sentido continuar a ser público?

 

A resposta: faz. A principal razão: os concorrentes portugueses da Caixa, os bancos privados, falharam tanto ou mais do que a Caixa nos últimos anos e estão a acabar todos nas mãos de estrangeiros. O BCP prepara-se para ser de chineses, de angolanos e de espanhóis. O BPI será definitivamente espanhol. O Novo Banco, o que sobrou do BES, será seguramente estrangeiro. O Totta é há muito do gigante espanhol Santander, que também levou o que sobrava do Banif. E a Caixa? Se fosse privatizada iria igualmente parar a mãos de estrangeiros - em 2012, chegou a ser falado dentro do Governo de Passos Coelho o interesse da Casse de Dépôts et Consignations, um banco (público) francês. Não há capital em Portugal para disputar este jogo.

 

Um país economicamente frágil cuja totalidade da banca é controlada a partir do exterior tem um problema. Há o risco de desconsideração de projectos ou de indústrias nascentes com interesse para o país - embora, se estes forem bons, a probabilidade maior seja de que alguém pegue neles. O maior risco é outro e paira nos tempos maus. Bancos cuja palavra final para a decisão de crédito está no estrangeiro tomam a decisão, racional, de reduzirem a exposição a mercados em crise, como aconteceu em Portugal a partir de 2011. Este recuo no crédito é um ampliador de recessões. Nos anos da troika foi muito importante ter a Caixa em mãos portuguesas (como explicou José de Matos na comissão de inquérito), como foi relevante o papel do então BES (um centro de decisão nacional, para o bem e para o mal), do BCP e do BPI.

 

Custa assistir a mais um aumento de capital na Caixa com dinheiro público, vendido apenas como uma vitória política. É factura, mais uma. Mas a Caixa, o maior banco português, é uma rede de segurança - um último reduto de poder sobre o crédito num país sem capacidade financeira. Acontece assim por falhanço dos privados, depois de má gestão e de um período enorme de ilusão colectiva alimentada por incentivos errados (nacionais e europeus) de política económica. O Governo fez bem em batalhar por uma Caixa totalmente pública. O desafio agora - para este, para os próximos governos e para quem escrutina - é zelar para que seja bem gerida.

 

Jornalista da revista SÁBADO

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