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João Carlos Barradas - Jornalista 30 de Junho de 2010 às 12:02

A coca de Bissau

O mês começou em Bissau com o arquivamento da acusação contra o ex-chefe da Marinha, Bubo Na Tchuto, por tentativa de golpe de estado contra o presidente Nino Vieira em 2008. No dia 6 o Departamento do Tesouro de Washington congelava os bens...

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O mês começou em Bissau com o arquivamento da acusação contra o ex-chefe da Marinha, Bubo Na Tchuto, por tentativa de golpe de estado contra o presidente Nino Vieira em 2008.

No dia 6 o Departamento do Tesouro de Washington congelava os bens que se encontrem sob jurisdição norte-americana do contra-almirante guineense e do actual chefe da Força Aérea, Papa Camara, por envolvimento em tráfico de droga.

A 25 de Junho o presidente Malan Bacai Sanhá nomeava, por proposta do governo chefiado por Carlos Gomes Júnior, o major-general António Indjai Chefe de Estado-Maior General da Forças Armadas.

A nomeação de Indjai, que a 1 de Abril chefiara um golpe para depor o CEMGFA Zamora Induta e ameaçara matar o primeiro-ministro, foi criticada publicamente pelos Estados Unidos e a União Europeia.

Washington exigiu a libertação do almirante Induta e de outros oficiais detidos desde Abril e o respeito pelo princípio da subordinação das forças armadas ao poder civil, enquanto a União Europeia reiterava a necessidade de julgar os responsáveis pelo golpe, suspendendo a missão de reforma do sector de segurança e defesa.

As pressões norte-americanas e europeias levaram ao adiamento, alegadamente por motivos logísticos, da reunião extraordinária em Bissau dos chefes das forças armadas dos 15 países da Comunidade Económica dos Estados da África Ocidental (CEDEAO) agendada para segunda-feira e terça-feira.

A análise da situação da Guiné-Bissau e a exposição das posições da ONU e da União Europeia sobre a reforma das forças militares e policiais estavam em agenda, mas o desaforo da dupla Na Tchuto-Indjai exasperou norte-americanos e europeus e levou a Guiné-Conakry e o Senegal a arrepiarem o passo no reconhecimento do novo poder de facto.

Os chefes de Estado e governo da CEDEAO terão oportunidade de manifestarem o repúdio pelo que se passa em Bissau na sua próxima cimeira na ilha do Sal a 2 de Julho.

Uma eventual declaração pública de Lula da Silva, que também irá a Cabo Verde para uma cimeira bilateral entre a Comunidade e o Brasil, poderia acentuar a pressão, mas é possível que tanta diplomacia acabe pactuando com a degradação da Guiné.

O marinheiro da coca e seu general
O ano de 2004, em que Na Tchuto chegou à chefia da Marinha, marcou o início da formação na África Ocidental de dois eixos de tráfico da coca sul-americana para a Europa com uma rede centrada na Guiné-Bissau e Guiné-Conakry e outra mais a Sul no Benim.

O tráfico alastrou e em 2009 cerca de 20 toneladas terão transitado pela região.

As Nações Unidas estimam que este ano os cartéis sul-americanos movimentem coca através da Guiné-Bissau num montante próximo dos mil milhões de dólares, mais do dobro do PIB local.

Na Tchuto, que se estabelecera entretanto com um dos principais sócios dos traficantes sul-americanos, fugiu para a Gâmbia em Agosto de 2008, após o então CEMGFA, Tagmé Na Waié, o acusar de conspirar contra Nino Vieira.

Na Waié, por sua vez, tentou em Novembro matar o presidente que ripostou em Janeiro acabando os dois assassinados em Março de 2009.

Zamora Induta, que alinhara com Na Waié no golpe que afastou Nino Vieira da presidência em Maio de 1999, passou a CEMGFA.

Indjai, também da etnia balanta que predomina entre os militares, foi nessa altura promovido a major-general e nomeado vice-chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas.

Acusado de envolvimento no tráfico, Indjai incompatibilizou-se com o seu superior e jogando na rivalidade entre o presidente Bacai Sanhá e o primeiro-ministro Gomes Júnior lançou um golpe a 1 de Abril passando a controlar as forças armadas.

O contra-almirante manobrava, por seu turno, às claras desde Dezembro de 2009 quando regressou a Bissau para se refugiar na representação da ONU, alegando perseguição política e risco de vida.

Depois do golpe de Abril Na Tchuto, seguro da próxima absolvição pelo Tribunal Militar de Bissau, abandonou o refúgio de conveniência e deixou correr o marfim e a coca até o parceiro Indjai impor a sua posição como supremo chefe militar.

Uma impunidade grotesca
O enredo é tão grotesco e ostensivo que não deixa qualquer margem para Portugal, a União Europeia e os Estados Unidos pactuarem com a tropa da coca que transformou a Guiné-Bissau num covil de transbordo dos cartéis sul-americanos.

Enquanto se aguarda por mais reviravoltas, prisões, sequestros e assassínios em Bissau é de rigor que Portugal coloque o assunto em agenda na cimeira da CPLP de 23 de Julho em Luanda.

O respeito pelo princípio da não-ingerência em assuntos internos não implica pactuar com os bandos de traficantes de Bissau e Portugal deve dar um sinal claro nesse sentido suspendendo quaisquer contactos com militares guineenses.

A condenação política expressa da tropa da coca é um imperativo para uma organização que foi constituída em 1996 por chefes de estado e governo "imbuídos dos valores perenes da Paz, da Democracia, do Estado de Direito, dos Direitos Humanos, do Desenvolvimento e da Justiça Social."

A cimeira de Luanda e a credibilidade da CPLP já estão ameaçadas pela eventual aceitação do pedido da Guiné-Equatorial, observador associado desde 2006, para se tornar membro de pleno direito.

Se a tropa da coca guineense sair impune da cimeira de Luanda e Teodoro Obiang, o ditador cleptocráta e megalómano do petróleo da Guiné-Equatorial, conseguir levar a sua avante a credibilidade e honorabilidade da CPLP não valem uma castanha de caju.


Jornalista
barradas.joaocarlos@gmail.com
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