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Simon Johnson 15 de Julho de 2013 às 10:26

A comédia de horrores dos bancos britânicos

O diabo está sempre nos pormenores. E os maiores demónios da nossa era económica escondem-se nos pormenores de como as autoridades consideram o capital – financiamento por capitais próprios - dos nossos maiores bancos. As autoridades governamentais identificaram-se, de forma muito próxima, com a visão distorcida e egoísta dos executivos bancários de todo o mundo. O resultado é um grande perigo para todos nós.

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Neste mundo surreal, o Reino Unido assume uma influência desproporcional, porque Londres ainda é um dos principais centros financeiros de todo o mundo - e porque os maiores bancos dos Estados Unidos e da Europa têm-se revelado muito eficazes em colocar os reguladores americanos e britânicos uns contra os outros. Líderes de opinião de todo o mundo esperam dos britânicos uma abordagem inteligente e diferenciada para a política do sector financeiro. Infelizmente esperam em vão.

 

Para entender exactamente o problema é preciso examinar a mais recente informação da “avaliação de défices de capital” que a Autoridade de Regulação Prudencial (PRA, na sigla inglesa) levou a cabo com oito dos principais bancos do Reino Unido. Não quero dizer que o trabalho do PRA é de fácil leitura para um leigo. Mas qualquer pessoa que dedique algum tempo aos documentos, em primeiro lugar terá vontade de rir. Depois, terá vontade de chorar.

 

Com grande alarido (e cobertura da imprensa, em geral, favorável), o PRA anunciou que alguns bancos não têm capacidade de reconhecer perdas - em relação aos objectivos de capital próprio que são ridiculamente baixos. O Comité de Política Financeira do Banco de Inglaterra disse que a meta deveria ser de 7% dos activos ponderados pelo risco, segundo as definições de Basileia III. Além disso, na apresentação do PRA, isso equivale a um rácio de alavancagem de cerca de 3% para a maioria desses bancos (novamente usando as definições de Basileia III), ainda que alguns bancos precisem de um ajustamento adicional para chegar a esse nível.

 

Em poucas palavras, um banco supostamente bem capitalizado no Reino Unido pode ter 97 cêntimos de dívida por cada dólar de activos (e apenas três cêntimos de capital). Essa baixa capacidade de reconhecimento de perdas seria insustentável nos Estados Unidos, onde os reguladores estabelecem um rácio de alavancagem entre 5 e 6% (o dobro do capital sobre uma base não ponderada em função do risco), e alguns dos responsáveis fazem pressão para que chegue aos 10% ou mais.

 

Só dá vontade de rir. A tragédia no exercício do PRA é que os responsáveis acreditam, aparentemente, que estão a fazer uma verdadeira reforma, em vez de precaverem problemas sérios. Para ser justo, algumas coisas que o PRA fez têm algum sentido - incluindo as ponderações de risco de ajustamento e o facto de levar em consideração as perdas de "custos de condutas futuras" (tradução: as penalidades por infringir a lei serão substanciais). E o tratamento, por parte dos bancos, dos investimentos em companhias de seguros é sensato em relação às alternativas.

Mas o potencial para mais sofrimento para os contribuintes - que ainda estão a recuperar dos custos de resgatar o Royal Bank of Scotland (RBS) - é grande. O convite aos bancos para “contornar” o sistema de avaliação do risco é expresso claramente: “em conformidade com a recomendação do Comité de Política Financeira, o PRA aceitou medidas de reestruturação que, ao reduzir os activos ponderados em função do risco, melhorarão, de forma credível, a adequação de capital”. Por outras palavras, os bancos podem agora alterar a forma como calculam o risco – por exemplo, manipulando os seus próprios modelos – para que as autoridades reguladoras os vejam com melhores olhos. 

 

As autoridades britânicas acreditam que estão a construir um centro financeiro global flexível, capaz de assumir grandes riscos e suportar grandes choques – internos ou exteriores (isto é, da Zona Euro). Até o HSBC, o mais bem capitalizado de todos, tem um rácio de alavancagem de apenas 4,6%, enquanto o do Barclays é inferior a 3%. Num mundo profundamente instável, são defesas demasiado fracas contra as perdas.

 

A margem de erro ao nível macroeconómico, de prudencial e de funcionamento é igualmente estreita. Os britânicos – e todos nós – cometemos muitos erros na última década. Em risco está toda a gente que tem um emprego no Reino Unido, e todas as instituições financeiras com operações significativas no país – o que inclui uma grande parte de todos os bancos mundiais.

 

O escândalo da Libor, no ano passado, deitou por terra a ideia de que os britânicos haviam imposto qualquer tipo de normas para a conduta bancária, enquanto o desastre do Royal Bank of Scotland eliminou completamente a percepção de que as autoridades britânicas sabem como lidar com um banco em apuros. Agora, o PRA confirmou que as autoridades britânicas nem sequer compreendem a fundo as noções básicas de regulação de capital - isto é, determinar quanto capital necessitam as principais instituições financeiras globais para ter segurança.  

 

As autoridades britânicas - e de outros países – deviam tirar um dia de folga e ler o livro de Anat Admati e Martin Hellwig, “The Bankers’ New Clothes: What’s Wrong with Banking and What to Do About It” (A nova roupagem dos banqueiros: o que está errado na banca e o que fazer com isso), um guia para refletirmos sobre as razões para necessitarmos de mais capital no nosso sistema financeiro. Depois, deveriam voltar e fazer o seu trabalho correctamente, introduzindo, de forma gradual e responsável, requisitos de capital muito mais elevados.

 

Simon Johnson é professor da Sloan School of Management do MIT e co-autor de “White House Burning: The Founding Fathers, Our National Debt, And Why It Matters To You”.

 

Direitos de autor: Project Syndicate, 2013.
www.project-syndicate.org 

Tradução: Rita Faria

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