Pedro Santos Guerreiro
Pedro Santos Guerreiro 10 de setembro de 2009 às 11:48

A conspiração BCP

O que se passou afinal no BCP? Uma autodestruição infligida por uma gestão gananciosa, mentirosa, criminosa? Ou uma cilada orquestrada por banqueiros concorrentes, com a cumplicidade do Governo e anuência do Banco de Portugal?
O que se passou afinal no BCP? Uma autodestruição infligida por uma gestão gananciosa, mentirosa, criminosa? Ou uma cilada orquestrada por banqueiros concorrentes, com a cumplicidade do Governo e anuência do Banco de Portugal? A história está por contar, o caso por julgar, mas o que Filipe Pinhal aponta, acusa e conta fará parte de uma coisa e da outra.

Filipe Pinhal, número dois de Jardim Gonçalves desde o início, era presidente executivo do banco naquele Dezembro de 2007 em que a "velha" gestão foi apeada por alguns grandes accionistas, após recomendação do Banco de Portugal. Pinhal diz que tudo se passou nas suas costas. Logo dele, que tinha mandato de mais de 120 mil accionistas. Dois meses depois tomaria posse uma nova administração, liderada por quem até geria a Caixa Geral de Depósitos.

Prevaleceu então o entendimento público de que a intervenção colocara um "basta!" em dois anos de guerras fratricidas entre accionistas e entre gestores, assim repondo o contador do BCP a zeros. Filipe Pinhal diz agora outra coisa: que a opinião pública foi preparada para aceitar um assalto ao poder.

A história que Filipe Pinhal conta é tenebrosa. Ou é um delírio alucinado ou é uma conspiração medonha que envolve as pessoas mais poderosas deste país, a quem aproveitou a ruína do BCP. Pinhal fala de "mandantes", da "inspiração de um concorrente", de uma guerra que tinha na primeira linha "o capitalismo de Estado e o capitalismo de família, concorrentes directos", e na segunda linha "um capitalismo emergente com dinheiro e sedento de afirmação".

Alguns nomes são ditos, outros são óbvios. O Governo de José Sócrates "interveio" - e com Governo, Pinhal refere-se "ao partido que o sustenta", o PS. Bancos concorrentes tiveram um papel na guerra, aproveitando-se da queda do BCP. Quais: "capitalismo de família". Dois mais dois são quatro: o Banco Espírito Santo.

Serão estes os mandantes, na tese de Filipe Pinhal, que se apoiaram na Caixa Geral de Depósitos e na EDP. "Uma pessoa que não é accionista convida que a reunião [entre alguns accionistas] prossiga na EDP": António Mexia. Mais: o Banco de Portugal é liderado por quem não tem competência "para desmontar o circo", Vítor Constâncio. E o "capitalismo emergente" (Berado, Rendeiro e outros) vê uma oportunidade de poder e de protagonismo. A sua ganância é utilizada pelos "mandantes".

Os réus da acusação de Pinhal "são os que manipularam na sombra", os outros foram "agentes a soldo dos grandes interesses económicos que gostariam de abater um concorrente", escreve. "Os mandantes (...) deram, e continuam a dar, a 'luz verde' para os disparos".

Filipe Pinhal, Jardim Gonçalves, Christopher de Beck, António Rodrigues e Castro Henriques estão acusados pelo Ministério Público dos crimes de manipulação do mercado, falsificação de documentos e burla qualificada. Pinhal diz-se inocente de tudo, o que os tribunais julgarão. Este livro, bem como a entrevista de hoje de Filipe Pinhal ao Negócios, não é sobre se as "offshores" foram um instrumento para o mal ou um erro operacional; se através delas foi "criado" capital, manipulando cotações e investidores. É sobre se aqueles a quem aproveitou a queda do BCP a premeditaram com uma frieza e cálculo arrepiantes.

Há um "master mind" na história denunciada. Ou é quem intentou a história ou é quem inventou a denúncia. Mas isto não fica por aqui.
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