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Paulo Ferreira pferreira@mediafin.pt 06 de Janeiro de 2004 às 15:53

A crise que não temos

A recessão de 2003 foi profunda. O país vai demorar longos meses a recuperar dela e vai precisar de anos para voltar a crescer a taxas próximas do seu potencial. O desemprego aumentou bastante e sabe-se que vai continuar a aumentar este ano.

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A recessão de 2003 foi profunda. O país vai demorar longos meses a recuperar dela e vai precisar de anos para voltar a crescer a taxas próximas do seu potencial. O desemprego aumentou bastante e sabe-se que vai continuar a aumentar este ano.

E tal como já aconteceu em 2003 não é avisado esperar ganhos de poder de compra que se sintam nos bolsos do trabalhador médio.

Tudo isto é verdade e é contado pelas estatísticas. Calculamos, porque os números o dizem, a quantidade de dramas individuais dos que foram apanhados pela crise.

E, no entanto, apesar disto tudo, esta parece estar a ser uma crise diferente das anteriores, há 10 e 20 anos. Diferente porque parece colectivamente menos dolorosa.

Isso tem sido defendido por alguns economistas. Não aparece com limpidez nas estatísticas, mas faz todo o sentido que assim esteja a acontecer.

Apesar de todos os ajustamentos dos dois últimos anos, o nível de vida médio entretanto adquirido pelos portugueses permitiu fazer alguma contenção do consumo sem cortar em bens básicos e essenciais.

Para uma parcela significativa da população, há hoje uma margem de manobra aceitável nos orçamentos familiares para aumentar a poupança – a reacção típica dos tempos de crise, que troca consumo imediato por aforro para o que der e vier – sem baixar o nível de vida.

Isto é importante para se relativizar a leitura catastrofista de alguns indicadores sectoriais, como os que são apresentados nesta página sobre a evolução das vendas de automóveis.

É verdade que em 2003 foram vendidos menos 15% de carros em relação a 2002 e menos 37% quando se compara com 2000, o melhor ano de sempre para o sector. São números com aparência assustadora, que causam necessárias dores de cabeça às empresas do sector.

Mas, vendo bem, só nos últimos cinco anos foram vendidos em Portugal 1,7 milhões de veículos novos. O que significa que, em média, uma em cada duas famílias comprou carro novo desde 1999. Com ou sem crise, era pouco expectável que o ritmo frenético de vendas de 1999 e 2000 continuasse eternamente.

E o mesmo se passa com a venda de habitações, de electrodomésticos, bens electrónicos de consumo e outros equipamentos duradouros.

O crédito barato e a euforia de um país que se achou vencedor invencível provocaram a autêntica "barrigada" de consumo do final da década passada.

E agora estamos em pleno refluxo. Que é racional, natural e até salutar.

O que não se pode é medir a dimensão e o impacto social desta crise conjuntural pelas quedas nas vendas de alguns sectores. Tal como, há uns anos, foi um erro medir o sucesso do país pelo número de telemóveis vendidos e de veraneantes nas praias algarvias.

E nem uma nem outra destas leituras apressadas nos revelam ou desmentem o essencial: que o país está, de facto, mergulhado numa grave crise. Mas essa é estrutural e vai muito para além das flutuações anuais do PIB ou do consumo.

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