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Mário Melo Rocha 07 de Maio de 2007 às 13:59

A Democracia é um eucalipto?

A imagem não podia ser mais esclarecedora. Na primeira página de um diário de há poucos dias surge um homem idoso, isolado do resto da gente, campesino vindo à cidade, fatinho domingueiro e boina basca, segurando um cravo vermelho. O olhar não esconde a d

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A vinda ao desfile, trinta e três anos depois, é o tributo que entende dever pagar. Mas os sonhos que teve estão esclarecidos na foto. Nunca os irá ver realizados. Nem esses nem os que festeja no "dia do trabalhador", perdido na bruma nostálgica de quando achava que mudava o mundo.

Esses sonhos não ocupam qualquer espaço nos jovens de hoje. Um deles afirma, com a convicção de quem a frequenta, que "25 de Abril é uma ponte que existe em Lisboa", o que ninguém conseguirá desmentir. Outro afiança, sem a menor ponta de estrabismo, que "quem fez o 25 de Abril foi Marcelo Caetano" e ainda um outro assevera, com candura e serenidade, que "Salazar foi um rei de Portugal", repetindo, com a devida vénia, que se tratou de "D. Salazar". Talvez por isto, por estas e por outras, uma professora do 9º ano de uma escola de Lisboa, que se deixou identificar, tenha pedido aos seus alunos, entre o desespero puro e duro e a angústia nua e crua, que "se vos entrevistarem na rua, por favor não abram a boca". Uma outra professora, do 12º ano de uma escola do Porto, que também permitiu que a identificassem, avança com uma explicação, face aos seus alunos, que dói tanto como as verdades quando são atiradas: "dizem que quando aconteceu ainda não tinham nascido e, por isso, é uma seca". E ainda uma outra, professora do 6º ano, que não permitiu a identificação, avança, com uma simplicidade que mata, que "a maioria dos alunos não tem a menor noção do que foi o 25 de Abril, nem nunca ouviu falar". Estamos assim.

É por isto, por esta confrangedora situação, que tem a maior importância o discurso que o PR fez, no dia evocativo, no Parlamento. É necessário fazer pedagogia, é urgente fazer o que não se fez, por descuido, por falta de visão e porque os portugueses remedeiam sempre o que está mal mas não antecipam nunca o que pode ir pelos maus caminhos. É para ontem travar e inverter a incúria. É preciso qualificar a liberdade, mimá-la, acarinhá-la, vivê-la todos os dias, individual e colectivamente. É preciso que a liberdade não se confine a um conceito político e passe a ser, acima de tudo, um conceito cultural. Uma pele. O nosso modo de vida. É uma questão e uma opção de civilidade. A "qualidade da democracia" de que fala o PR passa, em primeira mão, por aí. A existência de uma "classe política qualificada", desejada pelo PR, passa por inverter os mecanismos partidários existentes, romper com eles, rasgar o passado. A opção por "critérios de rigor ético, exigência e competência", exigidos pelo PR, passa por cortar radicalmente com os critérios das escolas partidárias que, no actual estado de coisas e ao invés do que é apregoado, definham e desqualificam a democracia. Não se trata de fazer de conta. Como, por exemplo, chamar o PM ao Parlamento uma vez por semana, imitando, agora, a prática parlamentar britânica que tem décadas. Isso é cosmética, aliás, não invocada quando quem a convoca foi poder. O problema é de fundo e profundo e tem que ver com regenerar todo o sistema. E a questão é, por isso, muito simples: há coragem colectiva para o fazer ? Até agora não houve. Até hoje nunca se viu que os partidos se preocupassem seriamente com isto. A verdade é esta. Por isso é que, ao contrário de se alimentar a democracia, os partidos, com os actuais modelos das suas escolas, a gangrenam. E é por isso que, em lugar de plantarem árvores de frutos todos os dias, passam o tempo a plantar eucaliptos. Que é o que são as escolas partidárias, secando tudo à sua volta. Quando derem por ela, a democracia é um eucalipto. Depois peçam para ela sorrir.

P.S. O ministro Mário Lino foi a Alcobaça defender a Ota, invocando a sua qualidade de "Engenheiro Civil, inscrito na Ordem", arrancando uma suculenta gargalhada geral da assistência. Em qualquer outro país, seria, no mínimo, chamado pelo PM para se explicar. Cá não. Cá nunca se extraem consequências.

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