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Leonel Moura leonel.moura@mail.telepac.pt 01 de Setembro de 2016 às 19:29

A democracia não funciona

Brasil, Espanha, Grã-Bretanha, Estados Unidos e até Portugal demonstram que o sistema democrático, tal como o conhecemos, tem cada vez mais dificuldade em resolver situações políticas complexas.

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No Brasil o golpe é evidente. Políticos corruptos deitam abaixo uma Presidente honesta, em nome do combate à corrupção. Nos últimos meses percebeu-se que o meio político brasileiro foi capturado por gente pouco recomendável e mesmo por alguns verdadeiros bandidos. Contudo, foram eleitos e o golpe foi democrático. Ou seja, seguiu as regras estabelecidas e uma maioria de votos deitou abaixo Dilma.

 

Em Espanha, o resultado eleitoral não tem permitido formar uma maioria. Estão há 10 meses sem governo. O que, diga-se de passagem, não tem sido nada mau para a economia que está a crescer. De qualquer modo, repetido o ato eleitoral numa segunda volta inconclusiva, obrigará a uma terceira. Dir-se-á que a culpa é dos políticos que não se entendem. Mas, na verdade, o sistema partidário, tal como existe, não favorece cedências nem consensos sob pena de isso poder sair caro. Em Espanha é evidente. Quem ceder perde.

 

O caso do Brexit é igualmente elucidativo na perspetiva da participação dos cidadãos. É frequente ouvir dizer-se que é preciso consultar o cidadão comum, pois não se pode deixar tudo nas mãos dos políticos. Pois aqui está um exemplo de como as coisas podem correr terrivelmente mal quando se dá voz ao povo. Na verdade, sabe-se agora, a maioria dos eleitores não estava minimamente informada sobre o assunto, nem sobre as consequências. Agora anda tudo aflito, a começar por muitos dos que fizeram campanha pela saída. As consequências para a Grã-Bretanha são desastrosas sob muitos pontos de vista e não só no económico.

 

Nos Estados Unidos, um louco furioso, como dizem os franceses, derrubou facilmente uma série de outros candidatos e o próprio Partido Republicano que os apoiava, ultrapassando todos com um discurso de extrema-direita, muita ignorância, perfeitas mentiras e pura estupidez à mistura. É certo, mas é democrático. Teve mais votos do que os outros. Logo se verá em Novembro no que dá.

 

Portugal é um exemplo oposto ao de Espanha, mas, precisamente por ir numa linha positiva, não deixa de levantar questões importantes. Desde logo, a história do arco da governação. Durante décadas vivemos numa democracia incompleta já que uma parte do parlamento estava à partida excluída de participar ativamente. O acordo à esquerda é nesse sentido histórico. Mas levanta outro problema. Os três partidos, PC, Bloco e Verdes, estão dentro e fora. Não foi ainda possível, para nenhuma das partes, assumir as coisas com clareza. E isso a médio prazo não é bom.

 

Temos aqui cinco casos, existem outros, que demonstram como a crise do sistema democrático está a conduzir a mudanças bastante erráticas. Na maioria dos casos assiste-se a um fortalecimento do antigo, do medo, do conflitual. Em poucos, como é o nosso, da cooperação, combinação de esforços, acordo sobre o que une e não confronto sobre o que separa.

 

Vivemos num tempo de profundas e aceleradas mudanças. De tal forma velozes que não deixam tempo à reflexão, favorecendo incertezas e confusão. A democracia, não enquanto conceito, que é perfeito, mas como sistema precisa de se repensar. Precisa sobretudo de adaptar-se ao tempo, evoluir. Não sei como e ainda bem. Porque esse pensamento não pode mais sair de uma única cabeça ou de uma vanguarda militante, mas será obra, interativa, de muitos.

 

Artista Plástico

 

Este artigo está em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

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