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Fernando Sobral - Jornalista fsobral@negocios.pt 12 de Janeiro de 2012 às 23:30

A dívida e o défice cultural e social

A austeridade vai ter efeitos contrários: há quem, com bom senso, vá regressar ao interior. Ali pode cultivar-se para comer. Nas cidades ninguém come betão e asfalto. Em contrapartida, o Estado continua a destruir inclementemente tudo o que há no interior: vias ferroviárias, centros de saúde, escolas.

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A austeridade vai ter efeitos contrários: há quem, com bom senso, vá regressar ao interior. Ali pode cultivar-se para comer. Nas cidades ninguém come betão e asfalto. Em contrapartida, o Estado continua a destruir inclementemente tudo o que há no interior: vias ferroviárias, centros de saúde, escolas.

Há poucos dias, Seth Kugel escrevia, nas páginas do "New York Times", uma reportagem sobre o desconhecido Norte de Portugal. Ao falar das pequenas vilas e aldeias, escrevia: "elas são encantadoras, com toda a certeza, mas estão também claramente a morrer". Ou seja, os jovens são escassos e a maior parte das casas são utilizadas como residência de férias. Todos lhe contaram a mesma história: as quotas da União Europeia e os subsídios para não cultivar destruíram a agricultura. Como resultado, os filhos dos agricultores foram para as cidades estudar. O pior é contado ao jornalista por um local: "Isto levou a uma perda cultural incalculável. Milhares de anos de tradição e conhecimento perderam-se nos últimos 40 anos". Poderíamos acrescentar a célebre ASAE às invenções que destruíram o interior e a sua cultura, quando foi pelo País fora fechar pequenas casas de pasto familiares, em nome da modernidade e de cumprir o que diziam os burocratas de Bruxelas que só comem hamburgueres. É este o retrato real do interior do País, aquele que não se faz em Lisboa, entretido com distribuições dos lugares que a longa mão do Estado ainda permite.

A austeridade vai ter dois efeitos contrários: há quem, com bom senso, vá regressar à terra e ao interior. Ali pode cultivar-se para comer. Nas cidades ninguém come betão e asfalto. Mas, em contrapartida, o Estado continua a destruir inclementemente tudo o que há no interior: vias ferroviárias, centros de saúde, escolas. Agora que Portugal, por força da crise, poderia reencontrar o seu interior, o Estado encarrega-se de tornar isso impossível. Quem quiser regressar ao interior, para ter uma vida melhor e mais saudável (ainda que com menos produtos de consumo) vai deparar-se com a retirada do Estado e dos instrumentos essenciais que este deveria colocar ao serviço das pessoas que pagam impostos. Enclausurados nos condomínios e nos centros comerciais citadinos os portugueses parecem ter esquecido o seu interior que é também a sua memória e o seu cimento cultural. Fomos assistindo, ao longo dos anos, a uma desertificação sistemática que começou com o fecho de belas estações de comboio, muitas delas hoje ao abandono. Quando se viu a hipótese de a CP vender uma locomotiva histórica da via da Régua, como se fosse quinquilharia, poucos foram os que clamaram contra esta decisão que só olha para o cheque e esquece a memória ou a cultura. Ou simplesmente acha que ela se troca por dinheiro. Mas foi a isso que chegámos neste país, incapaz de saber preservar uma cultura milenar. Nem era preciso ir mais longe: basta ver o que tem acontecido, em Lisboa, aos edifícios pombalinos ou do período áureo do Estado Novo.

2012 vai claramente ser um ano em que Portugal tem de traçar uma linha na areia. Mas, como sublinhava o Banco de Portugal, o tempo não é fácil e poderão ser necessárias novas medidas de austeridade. Ou seja, adivinham-se mais impostos sobre aqueles que não podem fugir ao destino de quem trabalha por conta de outrem e não pode escolher paraísos fiscais para as suas poupanças. A época do salve-se quem puder, incentivada por esta sanha do Estado contra o que resta da sociedade civil, está agora a aniquilar o resto do País e da sua memória cultural. Alexandre Herculano temia que o comboio destruísse para sempre o campo. Exagerava claramente. Mas nas últimas décadas temos assistido à destruição incessante do interior português, onde a herança cultural portuguesa era mais forte. Choraremos por isso.

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