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Glória Rebelo 24 de Abril de 2006 às 14:20

A era pós-petróleo

O recente movimento, acentuado e contínuo, de subida do preço do brent - que em 19 de Abril último atingiu um recorde histórico de 74 dólares por barril em Londres, ou seja, o nível mais alto desde o início da sua cotação sob a forma actual, em 1988 – inq

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O recente movimento, acentuado e contínuo, de subida do preço do brent - que em 19 de Abril último atingiu um recorde histórico de 74 dólares por barril em Londres, ou seja, o nível mais alto desde o início da sua cotação sob a forma actual, em 1988 – inquieta os analistas.

Não é propriamente a tendência de subida do preço que representa uma surpresa, pois alguns analistas prevêem até que, num horizonte a médio prazo, este atinja valores na ordem dos 100 dólares. O que verdadeiramente surpreende, porque aumenta o risco inflacionista, é a rapidez da subida.

De facto, este aumento conjuntural deve-se, em muito, a três factores: à tensão vivida entre os EUA e o Irão, aos problemas de violência étnica que persistem na Nigéria e, ainda, à ameaça do governo do Chade de interromper o fornecimento de petróleo, na sequência de um "braço-de-ferro" com o Banco Mundial que envolve a afectação de fundos para a construção de um oleoduto.

Em todos estes casos o petróleo emerge como arma de pressão. O Irão é o quarto produtor mundial de petróleo e o segundo da Organização de Países Exportadores de Petróleo (OPEP), a Nigéria é o quinto maior produtor da OPEP, e o Chade produz uma média de 160.000 barris de crude diários.

Ora esta situação aumenta os temores de escassez de combustíveis e de aumento da inflação (a subida do preço do petróleo provocou já aumentos do preço da gasolina e de alguns bilhetes de avião), ameaçando o crescimento das economias.

Acresce que a energia é, para qualquer país, simultaneamente, um importante factor de crescimento da economia e um elemento vital para o desenvolvimento sustentável. Assim urge diversificar a oferta de fontes de energia alternativas ao petróleo para reduzir a dependência do crude, razão pela qual na generalidade dos países ocidentais já se suscita a questão do potencial de implantação das energias renováveis.

E – ao que parece por razões relacionadas com a avaliação do estado dos mercados, das infra-estruturas e da viabilidade das energias alternativas em cada país - a Espanha e os EUA lideram a lista de países onde, internacionalmente, se recomenda o investimento em energias renováveis (cfr. Ernst & Young, Renewable Energy Country Attractiveness Indices, Fevereiro de 2006).

Alegadamente, a razão para esta liderança assenta no facto de ambos os países oferecerem um forte potencial de crescimento e poderem, assim, atrair mais facilmente o investimento. Curiosamente, e em sentido inverso, países como a Dinamarca – que produz mais energia eólica por habitante do mundo – cobra-a tão cara e a sua rede eléctrica está tão saturada que as suas perspectivas de crescimento são fracas, pelo que ocupa um modesto 15º lugar no referido índice.

E, neste ranking, cabe realçar que Portugal se posiciona – ex aequo com a Itália – num "encorajante" sexto lugar. Em particular no que respeita a Espanha e a Portugal a sugestão aparece reforçada no segmento da energia eólica. Aliás, o índice a longo prazo estabelecido pela consultora Ernst & Young para a generalidade dos países considerados confere grande importância, comparativa, ao investimento na energia eólica (85%) e, menos, ao investimento na energia solar (5%) e noutras energias renováveis (10%).

Em Espanha o Governo de José Luís Zapatero aprovou, no Verão de 2005, um plano para as energias renováveis que orçamentou em 24.000 milhões de euros até 2050. Um dos principais objectivos deste plano é que a energia eólica cubra, em 2010, 12% da procura energética do país.

Em Portugal, em Janeiro deste ano, o Ministério da Economia apresentou um conjunto de novas medidas na área da energia previstas no Plano Tecnológico e na Estratégia Nacional para a Energia. Assumindo que o sector energético representa um dos domínios prioritários de I&D e de intervenção do Plano Tecnológico – e ciente de que além da energia eólica importa desenvolver outros vectores energéticos renováveis, como a Biomassa, a Energia Solar e a Energia das Ondas – o Governo procedeu ao lançamento do concurso de Centrais de Biomassa Florestal; lançou incentivos fiscais ao desenvolvimento dos Biocombustíveis; anunciou a certificação Energética de edifícios, novos regulamentos e obrigatoriedade de instalação de painéis solares térmicos; anunciou a criação de uma zona piloto e de mecanismos ágeis de licenciamento para projectos na área da energia das ondas; e assinou um memorando de entendimento para Projecto de Investimento e criação de Centro de Investigação & Desenvolvimento na área do Biogás e Hidrogénio.

Trata-se de um pacote de medidas que, embora pecando por tardias, representam um passo importante na concretização de novas medidas estruturantes no campo energético nacional, procurando reduzir a dependência externa do país.

Paralelamente, importará não esquecer que, a médio prazo, e à medida que a produção de petróleo diminui, o número de veículos automóveis aumenta – estimam os especialistas que, se hoje o parque automóvel mundial ronda as 700 milhões de unidades, daqui a vinte anos, e considerando o rápido crescimento das economias dos "países emergentes", como a chinesa ou a indiana, poderá ser o dobro! – e este cenário torna também urgente pensar a era pós-petróleo para a circulação automóvel, ou seja, pensar a aposta nos modelos híbridos, nos biocarburantes, ou nos GPL, como uma alternativa de futuro.

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