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Harold James 10 de Setembro de 2014 às 17:44

A Escócia deve abandonar a Zona Libra?

Numa altura em que a Escócia se prepara para o referendo deste mês sobre a independência, o Reino Unido - na verdade, toda a Europa - deve preparar-se para o impacto da vitória do "sim". A independência da Escócia iria revolucionar as estruturas constitucionais britânicas e europeias, e dar um grande impulso a outros movimentos separatistas europeus, da Catalunha ao norte da Itália. O impacto económico da independência, contudo, é mais difícil de prever.

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Há muito tempo que os defensores da independência insistem ser motivados, principalmente, pela singularidade da identidade escocesa. Mas a história e as tradições da Escócia - muito suas, sem dúvida - têm sido moldadas por séculos de interacção com a Inglaterra e outras partes das Ilhas Britânicas.

 

A questão mais imediata para os escoceses é o dinheiro. Saber se uma Escócia independente poderia ou deveria continuar a usar a libra britânica foi um assunto que dominou as discussões durante os últimos meses da campanha do referendo. O resultado - para a Escócia, Reino Unido e Europa - pode variar muito, dependendo do caminho que a Escócia escolher.

 

Até agora, os nacionalistas escoceses têm insistido que uma Escócia independente poderia manter a libra. Mas, dado que seria muito mais fácil defender uma moeda separada - para não mencionar o facto de o ministro britânico das Finanças, George Osborne, ter rejeitado explicitamente a união monetária proposta pelo primeiro-ministro escocês Alex Salmond – tais declarações equivalem a um auto-golo.

 

O problema com a visão dos nacionalistas escoceses é uma imagem espelhada da principal deficiência da Zona Euro. Tendo em conta que a moeda única não pode funcionar sem uma política monetária comum, e que as condições económicas em toda a união monetária diferem, os membros individuais são por vezes sujeitos a políticas inadequadas.

 

Por exemplo, durante o ‘boom’ da construção na década de 2000, a Irlanda e Espanha deveriam ter tido condições monetárias mais restritivas, taxas de juros mais altas, e rácios de cr´dito sobre activos inferiors. Mas a sua adesão à Zona Euro fez com que governos e sector privado beneficiassem de taxas de juro muito baixas. Depois da eclosão da crise financeira, as autoridades começaram a procurar maneiras de obrigar os bancos a reanimar os empréstimos nesses e noutros países em dificuldades, tornando-se evidente que não havia ferramentas disponíveis para isso.

 

Hoje, o Reino Unido enfrenta um dilema semelhante. O ‘boom’ imobiliário na área de Londres exige condições monetárias mais restritivas. Mas taxas de juro mais elevadas iriam causar estragos económicos no resto do país, onde a recuperação continua a ser anémica.

 

Além disso, tal como a Alemanha, Londres mantém um enorme excedente em conta corrente (8% do PIB) - um problema potencialmente grave, dado o efeito deflaccionário que o excedente da Alemanha teve sobre o resto da Zona Euro. O resto do Reino Unido já tem um défice externo que é maior do que o de qualquer outro país industrializado.

 

O comportamento de uma moeda pode ser conduzido por um sector poderoso e proeminente da economia; no caso da libra, é o sector financeiro. Alguns viram o rápido declínio da libra em 2007 e 2008 - uma desvalorização de 30% ponderada em função do comércio - como um estímulo económico muito necessário, dado o impulso que representava para a competitividade das exportações. A política monetária independente do Reino Unido dava um nível de flexibilidade ao país que as economias da Zona Euro não tinham.

 

Mas o restabelecimento da confiança no sector financeiro fez com que a libra recuperasse de forma acentuada (18% desde o final de 2008), eliminando parte do ganho de competitividade do Reino Unido. O que é bom para Londres não é necessariamente bom para o resto da economia.

 

Assim, escapar de uma estrutura económica que ligue a Escócia a Londres representa um apelo inequívoco - um apelo que o grande economista escocês Adam Smith teria reconhecido. De facto, a sua obra mais influente, "A Riqueza das Nações", foi baseada na crença de que os interesses da comunidade mercantil de Londres estavam a distorcer a política comercial britânica.

 

A alternativa à libra, no entanto, apresenta os seus próprios desafios. De acordo com o economista escocês Ronald MacDonald, uma Escócia independente deve ter a sua própria moeda, que teria as características de uma "petromoeda", devido à dependência da economia do gás e do petróleo do Mar do Norte.

 

Mas a substituição de um sector dominante por outro, provavelmente não sera bom para o resto da economia escocesa, que perderia competitividade sempre que alta dos preços da energia impulsionasse a taxa de câmbio. Com as indústrias menos competitivas a serem conduzidas para a falência, a actividade económica tornar-se-ia ainda mais concentrada e especializada.

 

Colocar o peso do ajustamento na taxa de câmbio não é solução. As pequenas economias abertas da Suíça e da Noruega - modelos importantes para a Escócia – sofreram as consequências da forte valorização da moeda durante a crise financeira global. Para a Suíça, a solução foi implementar um tecto máximo para a taxa de câmbio do franco em relação ao euro.

 

Isto deveria inspirar a Escócia a procurar associação com uma área monetária maior e uma economia mais diversificada. Que tal adoptar o euro?

 

Harold James é professor de História na Universidade de Princeton e colaborador sénior do Center for International Governance Innovation.

 

Direitos de autor: Project Syndicate, 2014.
www.project-syndicate.org

 

 

Tradução: Rita Faria

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