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A esquerda domesticada 

António Costa é o único socialista do Sul da Europa que lidera um partido que não sofre desgaste para a esquerda ou para movimentos populistas.

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Há algo muito diferente neste Verão face aos outros na história da democracia. Não são os fogos que devastam habitualmente milhares de hectares de floresta e ameaçam localidades cada vez mais envelhecidas e indefesas, não é a anemia económica, que já é uma doença crónica do país, nem os desastres bancários, que desde 2008, quando rebentou o escândalo BPN, já fazem parte do rol das contas a pagar pelos contribuintes.

 

A grande novidade deste Verão é o silêncio dos partidos mais à esquerda do PS. António Costa conseguiu ser primeiro-ministro com o apoio parlamentar do Bloco do Esquerda, do PCP e dos Verdes e simultaneamente contar com o apoio expresso ou com um silêncio cúmplice dos seus aliados.

 

Imaginam o coro crítico, se fosse outro o governo, que Catarina Martins ou Jerónimo de Sousa fariam sobre a travagem da actividade económica revelada pelo INE? E a desastrada intervenção no Banif, o qual a esquerda só culpa o anterior governo, os accionistas e os gestores do banco, esquecendo as responsabilidades do actual executivo, que se limitou a fazer o que as autoridades europeias ordenaram.

 

Há um episódio em que os partidos à esquerda fizeram um reparo ligeiro: a viagem dos secretários de Estado ao campeonato da Europa de futebol a convite da Galp. Sim, mostraram o seu desagrado. Mas se o secretário de Estado dos Assuntos Fiscais ainda fosse Paulo Núncio e estivesse na mesma situação, não era só uma suave indignação que se ouviria. Pediriam a imediata demissão dos governantes e dos ministros que os tutelam.

 

As principais sondagens indicam que o PS lidera as intenções de voto e que quer com o Bloco, quer com o PCP, pode conseguir uma maioria absoluta no parlamento. Ou seja, esta solução governativa tem reforçado o PS e não tem provocado erosão no eleitorado do Bloco, nem do PCP.

 

António Costa é o único socialista do Sul da Europa que lidera um partido que não sofre desgaste para a esquerda ou para movimentos populistas.

 

Em França, a herança de Hollande é uma verdadeira ameaça para os socialistas gauleses. Em Itália, Renzi está a assistir ao crescimento do movimento criado por um palhaço, que já conquistou a Câmara de Roma. Na Grécia, o Pasok foi a primeira vítima política da crise económica e implodiu. Em Espanha, o PSOE não consegue vencer eleições e tem já a morder o calcanhar o Podemos, um movimento populista com raízes no chavismo venezuelano que ambiciona substituir os socialistas como movimento hegemónico da esquerda espanhola.

 

Por cá António Costa pode dormir descansado. Domesticou a esquerda e só depende da evolução da economia para continuar no poder. Até a CGTP, a força com maior poder de aglutinação de protesto do país, está limitada na sua capacidade reivindicativa.

 

Costuma dizer-se que a sorte dá muito trabalho e a "pacificação" da esquerda é um mérito do primeiro-ministro.

 

A hegemonia da esquerda em Portugal está garantida para o PS. O máximo que Bloco e PCP podem aspirar é entrar numa coligação governativa como sócios minoritários. E ao desistirem da sua função tribunícia, estão a criar um espaço, que alguém vai preencher. Na política, tal como na física, há horror ao vazio. 

 

Director-adjunto do Correio da Manhã

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