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Luís Todo Bom 02 de Dezembro de 2013 às 00:01

A fábula do mercado interno

Tem sido amplamente referido, na actual situação de recessão económica que o país atravessa, a potencial melhoria da situação financeira das empresas portuguesas, em especial das PME, se o consumo interno pudesse ser incrementado.

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Esta afirmação pressupõe que um eventual aumento da procura interna seria automaticamente satisfeita através da oferta das empresas portuguesas.

Mas será realmente assim? As empresas portuguesas que actuam predominantemente no mercado interno, oferecem produtos e serviços de modo competitivo, com uma adequada relação preço/qualidade que lhes permita ganhar quota de mercado às empresas estrangeiras que concorrem no nosso mercado?

Para podermos reflectir sobre esta questão vale a pena recordar os princípios de competitividade referidos na teoria dos recursos, resumidos nas seguintes quatro características essenciais aplicadas às empresas:

• O objectivo último da empresa é obter resultados sustentáveis, acima da média, quando comparados com os seus competidores;

• A pré-condição para resultados sustentáveis superiores reside num conjunto de recursos, não disponíveis do mesmo modo para todas as empresas e na sua combinação em competências e capacidades;

• As competências e capacidades conduzem a resultados sustentáveis superiores desde que sejam específicos da empresa, valiosos para os clientes, insubstituíveis e difíceis de imitar;

• Numa perspectiva dinâmica, as inovações, especialmente em termos de novas combinações de recursos, podem contribuir de um modo substancial, para os resultados sustentáveis superiores.

A pergunta que se coloca é a seguinte: "Quantas empresas portuguesas, que actuam exclusivamente no mercado português adoptam estes princípios de competitividade?"

Todos nós temos a experiência de maus serviços prestados por empresas portuguesas em áreas diversificadas que nos levaram a optar por empresas estrangeiras. E, em alguns casos, temos verificado que, mesmo recentemente, algumas empresas estrangeiras têm aumentado a sua quota de mercado em Portugal.

O caminho a seguir é, pois, muito diferente e não passa por reclamar o abrandamento da política de austeridade para controlo das contas públicas, promovendo o consumo interno.

Passa, sim, pela preocupação das empresas portuguesas em obterem condições competitivas internacionais que lhes permita vencer a concorrência no mercado interno e exportar produtos e serviços para outros mercados.

Este foi o caminho escolhido pelas empresas portuguesas mais dinâmicas e que está na base do seu sucesso nos mercados externos e na evolução positiva das exportações e em que utilizaram o mercado interno como base de desenvolvimento e de inovação de novos produtos, processos e serviços.

O mercado interno português não pode continuar a acomodar empresas não competitivas em mercados abertos, sem estruturas de gestão e sem inovação ao nível dos produtos e dos processos.

A actual recessão económica do país vai funcionar como um sistema, agressivo e violento, mas necessário, de selecção empresarial.

Professor Associado Convidado do ISCTE

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