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Pedro Passos Coelho 03 de Março de 2009 às 11:25

A falta de ambição socialista

O partido socialista ofereceu o seu congresso para a cerimónia de entronização política do actual primeiro-ministro e este aproveitou a ocasião para pedir aos portugueses uma nova maioria absoluta, invocando a estabilidade política necessária à recuperação da economia.

O partido socialista ofereceu o seu congresso para a cerimónia de entronização política do actual primeiro-ministro e este aproveitou a ocasião para pedir aos portugueses uma nova maioria absoluta, invocando a estabilidade política necessária à recuperação da economia. Aproveito estas duas circunstâncias para também duas breves reflexões: uma a propósito do contributo cada vez mais fraco para a qualidade da democracia que os grandes partidos oferecem com estas exibições; outra sobre a falta de ambição subjacente ao argumento invocado no pedido de maioria feito ao eleitorado.

A última em primeiro. O partido socialista pode parecer contrariado por chegar ao fim destes quatro anos de maioria absoluta com o País imerso numa grave crise económica. A ideia é a de a crise importada do exterior dificulta injustamente que o Governo possa colher os frutos devidos pelo bom trabalho realizado nestes anos. De resto, há mesmo quem tenha a coragem de insinuar no partido socialista que os efeitos negativos da crise são suavizados pelo trabalho de casa prévio realizado na primeira metade do mandato. Mas, ao contrário desta visão enviesada dos socialistas, a verdade é que a crise tem ajudado injustamente o actual governo a disfarçar as suas responsabilidades num mau desempenho global que nos ofereceu neste mandato.

Deste ponto de vista, a crise não é um azar político mas uma circunstância feliz para os socialistas: a debilidade do tecido produtivo, o desemprego, o aumento do endividamento público, o desequilíbrio externo persistente, o agravamento das assimetrias na distribuição da riqueza e o alastramento da pobreza, enfim, tudo o que tem representado deficiência e desequilíbrio estrutural na sociedade portuguesa, passa por ser o resultado da crise económica global e também, já agora, dessas entidades externas que são o neoliberalismo e em particular os neoliberais norte-americanos anteriores ao presidente Obama. Para os socialistas, não ocorre assumirem que estes desequilíbrios estruturais não só não foram combatidos como até foram agravados pelas suas políticas públicas.

Por outro lado, os bloqueios na área da justiça; a continuada perda de qualidade ao nível do sistema educativo; a ineficiência e iniquidade no sistema nacional de saúde; as injustiças sociais agravadas trazidas por sistemas de redistribuição burocratizados e pouco inteligentes; o reforço do centralismo e dos seus mecanismos de influência e até de nepotismo; as políticas de desertificação do território; e a tendência arrogante para "educar" os cidadãos em função de padrões mais do que discutíveis que ameaçam a livre escolha são, entre muitos outros problemas, situações de facto que também são da responsabilidade do actual governo e que hoje o partido socialista prefere varrer para debaixo da mesa a coberto da crise económica.

Para o actual governo, só um espírito mesquinho ou mal formado pode apontar defeitos ou simples dúvidas, por exemplo, a operações realizadas pela Caixa Geral de Depósitos com o intuito de "salvar" elevados financiamentos anteriormente concedidos a "particulares" muito especiais, ou concursos lançados na área da saúde à medida de prestadores externos, ou vantagens fiscais no solar térmico que privilegiam alguns fornecedores em detrimento da generalidade. Quer dizer, entorses à concorrência e enviesamento de mercado em nome da eficácia ou urgência das medidas só podem ser vistos por olhos pouco focados na suposta competência e isenção do Governo.

No fundo, os socialistas estão a chegar ao final do seu mandato cheios de mazelas e sem uma visão estratégica para Portugal. Esperam que a crise, a suposta campanha negra contra José Sócrates e o papão da esquerda radical lhes salve a eleição e, quem sabe, a maioria absoluta. Mas é preciso dizer que o partido socialista não merece ganhar as eleições, muito menos renovar a maioria absoluta. Ao defenderem tal resultado com o argumento da recuperação económica apenas confessam que não têm projecto que justifique a sua permanência no poder e que não têm outra ambição que não seja a manutenção no poder em si mesma.

Em segundo lugar, a entronização de José Sócrates no congresso pareceu obedecer a um objectivo de puro espectáculo mediático que, em si mesmo, não só não é ilegítimo como se compreende que possa ter lugar numa sociedade muito mediatizada. O problema, portanto, não é a necessidade de comunicar com o País pelos meios mais massificadores, mas antes o facto de se tornar patente que cada vez mais o papel dos grandes partidos se reduz a essas encenações. O PSD, aliás, também vem experimentando esse progressivo esvaziamento político de há muitos anos a esta parte. O debate e a reflexão de suporte à acção política deixa de estar centrada nos partidos que vão a votos para estar (estará?) centrada nos candidatos que se apresentam no seio dos partidos.

O que revela enfraquecimento da qualidade da democracia é perceber que por detrás do espectáculo fica cada vez menos política substanciada em opções e alternativas que possam ser sujeitas a debate e escrutínio. Quando se está na oposição pensa-se revelar fraqueza promovendo esse debate. Quando se está no governo julga-se perder eficácia e autoridade ouvindo o partido e a sociedade. Talvez por isso não haja razão para satisfação nesta constatação. Apenas necessidade de mudar de vida na maneira como os partidos se vêem a si próprios.
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