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João Carlos Barradas - Jornalista 03 de Janeiro de 2012 às 23:30

A grande guerra do Irão

Bloquear Ormuz seria para Teerão um último recurso em situação de guerra total, envolvendo confronto com Israel e apoio de potenciais aliados do Iraque ao Líbano.

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Bloquear Ormuz seria para Teerão um último recurso em situação de guerra total, envolvendo confronto com Israel e apoio de potenciais aliados do Iraque ao Líbano.

Petróleo em alta, rial em queda, sanções e ameaças militares deram o mote para um ano de tensão no Golfo Pérsico em que qualquer erro de avaliação pode resultar num confronto.

As sanções aprovadas no Congresso e ratificadas por Obama contra o Banco Central de Teerão e seus clientes privados e estatais só entram em vigor em Junho, e apenas se o presidente as considerar favoráveis ao interesse nacional, mas bastaram para provocar a quebra do rial.

A apreensão nos mercados iranianos justifica-se pelo teor cada vez mais gravoso do cerco montado pelos Estados Unidos, Canadá e Grã--Bretanha, a que em breve se poderá juntar a União Europeia, às instituições financeiras iranianas e à sua indústria de hidrocarbonetos.

Sanções financeiras e comerciais continuam, entretanto, sem apoio de Pequim e Moscovo no Conselho de Segurança e ameaçam directamente os interesses dos principais comerciais do Irão, como a China, a Índia, Japão e Coreia do Sul.

O objectivo de criar uma dissuasão nuclear militar, consensual entre as elites iranianas desde o final dos anos oitenta, não será, no entanto, abandonado, por mais prejuízos económicos que as sanções possam causar.

A intervenção estrangeira contra Muammar Gadafi, que em 2003, na sequência da invasão do Iraque, abandonara o seu programa clandestino de armas de destruição maciça, apenas reforçou uma convicção estratégica essencial em Teerão.

A amplitude limitada das medidas de pressão lideradas por Washington e o actual cálculo russo e chinês de que o risco de uma nuclearização militar limitada do Irão é ainda preferível aos custos de uma guerra generalizada do Golfo Pérsico ao Mar Cáspio oferece suficiente margem de manobra a Teerão.

Braço-de-ferro

As eleições legislativas de Março irão definir as relações de força entre as principais facções do poder, os partidários do presidente Mahmud Ahmadinejad vs. Guia Supremo Ali Khamenei.

É do interesse do regime evitar que o sufrágio seja marcado por fraudes que relancem a contestação ocorrida na reeleição fraudulenta de Ahmadinejad em 2009, quando, pela primeira vez, foi posta em causa a legitimação popular da República Islâmica.

A recente escalada retórica quanto a um eventual bloqueio do estreito de Ormuz facilita a mobilização ante a ameaça externa, leva à alta do crude e aumenta as receitas do Irão - cuja produção petrolífera ronda presentemente os 3,5 milhões de barris/dia -, mas agrava o risco de isolamento diplomático de Teerão.

A capacidade militar limitada do Irão para impedir durante alguns dias ou semanas o tráfego de petroleiros não resistiria à intervenção imediata da V Esquadra dos EUA e os efeitos negativos sobre preços do crude e seguros marítimos levariam a amplo apoio internacional para punição de Teerão.

Bloquear Ormuz, por onde passa cerca de 17% do crude à disposição do mercado mundial, seria para Teerão, cujo orçamento depende em mais de 50% das receitas de exportação de petróleo, um último recurso em situação de guerra total, envolvendo confronto com Israel e apoio de potenciais aliados do Iraque ao Líbano.

Confronto inevitável

Os avanços no enriquecimento de urânio indiciam que, salvo novos atrasos provocados por sabotagem externa, o Irão poderá dotar-se, provavelmente até 2014 ou 2015, de engenhos nucleares mesmo que tais bombas não possam ser disponibilizadas como ogivas transportáveis por mísseis.

Esta eventualidade garantiria ao Irão dissuasão óptima em termos de retaliação destrutiva, independentemente dos altos custos humanos e materiais, tal como sucede presentemente com a Coreia do Norte, e é inaceitável para Israel que a curto prazo tentará criar uma situação de confronto.

A maioria dos decisores político-militares israelitas opta por ataque preventivo, obrigando a envolvimento norte-americano, ainda que a escala e risco das operações ultrapasse em muito os bem-sucedidos raides pontuais contra o reactor nuclear iraquiano de Osirak, em 1981, ou as instalações clandestinas sírias de Deir ez Zor, em 2007.

As negociações sobre o programa nuclear continuarão a arrastar-se, sanções serão impostas e contornadas, e por mais algum tempo persistirá esta situação em que a paz é impossível e a guerra mais do que provável até que as armas façam valer outros argumentos.


Jornalista
barradas.joaocarlos@gmail.com
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