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Eduardo Moura emoura@mediafin.pt 03 de Março de 2004 às 13:26

A guterrização de Durão

O primeiro-ministro português disse aquilo que nunca deveria ter dito. Que as reformas estruturais têm se sujeitar ao calendário eleitoral. Com isso a sua estatura política ficou mais próxima da...

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O primeiro-ministro português disse aquilo que nunca deveria ter dito. Que as reformas estruturais têm se sujeitar ao calendário eleitoral. Com isso a sua estatura política ficou mais próxima da mediania. Em consequência, Durão Barroso cometeu o pecado original do exercício do poder e ficou mais parecido com Guterres.

Talvez o aparelho do PSD agradeça o dobrar da espinha mas, a prazo, o PSD irá pagar a factura política e o país a factura do adiamento. Sexta-feira passada na Assembleia da República foi dia de debate mensal. A competitividade foi o tema de fundo escolhido por Durão Barroso e revestia-se de especial interesse para o país.

Desde logo porque é o assunto mais transversal da economia portuguesa. Abrange tanto a economia privada como a gestão do Estado central e municipal. Depois porque se hámatéria que reúna um verdadeiro consenso nacional é esta.

A competitividade é a palavra chave no discurso dos economistas, é a palavra chave no discurso dos empresários e é denominador comum ao discurso de todos os partidos políticos representados no Parlamento. Até o PCP compreende este conceito, até o Bloco de Esquerda discorre aceitando o “imperialismo” da competitividade.

Além disto, a competitividade é o conceito económico que nos permite comparar Portugal com a UE, que nos permite analisar o impacto do alargamento a Leste e nos permite antecipar o impacto da abertura do comércio internacional à maior potência do mundo, a China.

Finalmente, a competitividade é, em si, um conceito de natureza estrutural e de médio longo prazo. O futuro pode espreitar-se através da competitividade. Ou ficamos cada vez mais competitivos ou ficamos cada vez mais pobres.

Apesar da importância do tema escolhido, Durão Barroso preferiu assentar baterias na questão do fenomenal resultado das contas públicas portuguesas.

Aproveitou o debate mensal para revelar o plano de privatizações, o “mecenato” científico e a novidade dos números finais do défice e com isto procurou capitalizar politicamente o facto de o Governo ter conseguido alcançar o objectivo a que se tinha proposto.

É justo que o tenha feito até porque quem verdadeiramente realizou o esforço foi o país. Mas isso não pode esconder a circunstância de que Durão Barroso não só passou ao de leve sobre a competitividade, provando que tem muito mais ministra das Finanças do que ministro da Economia, como sobre ela disse que, dando o dito por não dito, devia sujeitar-se ao calendário político-eleitoral.

“O calendário político não ajuda. É muito difícil chegar a acordos deste tipo antes de eleições”, disse Durão Barroso respondendo à pergunta do seu próprio partido sobre o acordo entre os parceiros sociais e o Governo, no âmbito do Contrato Social para a Competitividade e o Emprego.

E, registe-se, a pergunta do deputado Guilherme Silva não tinha nada de venenoso pois ainda não passara um mês sobre o dia em que o Governo anunciou que em Junho, com acordo ou sem acordo, as medidas avançariam. Porquê este auto-adiamento? Que teme o PSD?

Onde está a Força Portugal que o primeiro-ministro tão bem mimetiza quando intervém com tanta veemência, com tantos gestos duros e expressivos, com tantas inflexões de tom de voz nos seus discursos na Assembleia da República?

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