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Harold James 08 de Abril de 2014 às 15:59

A história secreta da crise financeira

“Ilusões perdidas”, o grande romance de Balzac, termina com uma explicação da diferença entre “história oficial” (em que é “tudo mentira”) e a “história secreta” (a história real). Era possível esconder as escandalosas verdades da história por um longo período de tempo – até para sempre. Mas, hoje, já não é.

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Isso é visível, como em nenhum outro lado, nos relatos da crise financeira global. A história oficial retratou a Reserva Federal norte-americana (Fed), o Banco Central Europeu (BCE) e os outros grandes bancos centrais como organismos que executaram uma acção coordenada para resgatar o sistema financeiro global do desastre. Mas, as transcrições recentemente publicadas dos encontros do Comité de Operações do Mercado Aberto, em 2008, o principal órgão decisor da Fed, revelam que a autoridade monetária dos Estados Unidos conseguiu efectivamente emergir da crise como o banco central de todo o mundo, ao mesmo tempo que continuou a servir, principalmente, os interesses dos norte-americanos.

 

As reuniões mais importantes tiveram lugar a 15 de Setembro e a 28 de Outubro – na sequência do colapso do banco de investimento norte-americano Lehman Brothers – que se centraram na criação de acordos de “swap” (trocas) cambiais, com o objectivo de assegurar liquidez adequada. A Fed iria prolongar créditos em dólares a bancos estrangeiros em troca da sua moeda, que os referidos bancos acordaram recomprar depois de um determinado período, à mesma taxa, a acrescer de juros. Esta operação deu aos bancos centrais – especialmente aos europeus, que enfrentavam uma escassez de dólares devido à fuga de investidores americanos – o acesso a dólares de que precisavam para emprestar às instituições financeiras internas que estavam em dificuldades.

 

Na realidade, o BCE esteve entre os primeiros bancos a alcançar um acordo com a Fed, seguido dos outros grandes bancos centrais de países avançados, incluindo o Banco Nacional Suíço, o Banco do Japão e o Banco do Canadá. No encontro de Outubro, quatro economias emergentes “diplomática e economicamente” importantes – México, Brasil, Singapura e Coreia do Sul – entraram em acção, com a Fed a acordar o estabelecimento de linhas de “swaps” de 30 mil milhões de dólares (22 mil milhões de euros) com cada um dos respectivos bancos centrais.

 

Embora a Fed tenha actuado como uma espécie de banco central global, as suas decisões foram determinadas, em primeiro lugar, pelos interesses dos Estados Unidos. Para começar, a Fed rejeitou os pedidos de alguns países – cujos nomes estão redigidos nas transcrições publicadas – para integrar o esquema de “swaps” cambiais.

 

Mais importante que isso: foram colocados limites nos “swap”. A essência da função de credor de último recurso de um banco central tem sido a de fornecer fundos ilimitados. Tendo em conta que não há nenhum limite na quantidade de dólares que a Fed pode emitir, ninguém poderá assumir uma posição especulativa contra esse limite. Pelo contrário, o Fundo Monetário Internacional (FMI) tem recursos finitos providenciados pelos seus membros.

 

O papel internacional crescente da Fed desde 2008 reflecte uma alteração fundamental na forma de gerir o sistema monetário à escala global. O FMI surgiu numa altura em que os países eram normalmente vítimas dos banqueiros de Nova Iorque, como é exemplo a avaliação do JPMorgan, nos anos 20, de que os alemães eram, na prática, uma “população de segunda categoria”. O FMI foi um elemento fundamental da ordem internacional que se seguiu à Segunda Guerra Mundial, cujo objectivo era servir como um mecanismo de seguro universal – não um que pudesse ser aproveitado para servir os interesses diplomáticos contemporâneos.

 

Hoje em dia, como mostram os documentos da Fed de modo claro, o FMI tornou-se marginalizado – não apenas devido ao seu processo político ineficiente. Na verdade, na saída da crise, o FMI, assumindo que a procura pelos seus recursos iria manter-se permanentemente reduzida, começou logo a diminuir a sua dimensão.

 

Em 2010, o FMI ressuscitou, apresentando-se como um elemento central para resolver a crise do euro – começando pelo seu papel no financiamento do resgate grego. Mas, aqui, também, a história secreta foi relevada – a que sublinha o quão enviesada ficou a forma de gerir o sistema monetário global.

 

O facto é o de que apenas os Estados Unidos e os massivamente sobre-representados países da União Europeia deram o seu apoio ao resgate grego. Na verdade, as grandes economias emergentes opuseram-se fortemente, com o representante brasileiro a defender que se tratava de “um resgate dos detentores de dívida privada da Grécia, nomeadamente instituições financeiras europeias”. Até o representante suíço condenou a decisão.

 

À medida que os receios de um colapso repentino da Zona Euro davam lugar a um prolongado debate sobre como é que os custos deveriam ser geridos, ou através de amortizações de dívida ou de resgates financiados pelos depositantes, a posição do FMI tornou-se cada vez mais complexa. Embora seja suposto que o FMI tenha uma posição preferencial em relação a outros credores [a sua dívida é paga em primeiro lugar], haverá lugar a pedidos para perdoar uma percentagem dos empréstimos concedidos. Os países emergentes mais pobres deverão resistir a tal pedido, defendendo que os seus cidadãos não têm de pagar pelo esbanjamento orçamental dos países muito mais ricos.

 

Mesmo os defensores originais do envolvimento do FMI estão a virar-se contra o fundo. As autoridades europeias sentem-se ofendidas pelo aparente esforço do FMI em ganhar apoio dos países devedores da Europa ao impelir amortizações de todas as dívidas que não emitiu. E o Congresso norte-americano recusou-se a apoiar a expansão dos recursos do fundo – uma parte do entendimento internacional saído da cimeira dos G-20 em 2010.

 

A raiva que se seguiu à nomeação de outra cidadã europeia para directora-geral do FMI, em 2011, parece ter garantido que o próximo líder do fundo não virá da Europa. Contudo, o papel cada vez mais diminuto do FMI indica que tal não será muito importante. Como mostra a história secreta de 2008, o que interessa é quem acede à Fed.

 

Harold James é professor de História na Universidade de Princeton e membro do Center for International Governante Innovation. 

 

Direitos de Autor: Project Syndicate, 2014.
www.project-syndicate.org

Tradução: Diogo Cavaleiro

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