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A hora é de produzir em Angola o que Angola importa

Sendo Portugal o principal fornecedor de bens de consumo do mercado angolano, as suas empresas terão de se acautelar e preparar para um novo ciclo nas relações com Angola que passa por produzir localmente muitos dos produtos que actualmente exportam

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Angola deverá crescer a uma taxa média anual real de 5,2% nos próximos cinco anos, período que coincide com a próxima legislatura que se inicia após as eleições que hoje se realizam no País. A confirmarem-se estas projecções do Fundo Monetário Internacional (FMI), o produto interno bruto (PIB) angolano crescerá marginalmente acima dos 4,5% da média mundial, mas abaixo dos 6,2% das economias emergentes e dos 5,5% da África Subsaariana.

Entre 2009 e 20012, isto é nos quatro anos da legislatura que agora termina — a nova constituição acrescentou um ano aos mandatos dos deputados —, Angola cresceu a um ritmo real anual de 4%, melhor que a média mundial de 3%, mas pior do que os 5,6% dos emergentes ou os 4,7% dos vizinhos abaixo do Saara.

Se as projecções do FMI não falharem, no período 2009-2017, o crescimento médio anual de Angola rondará os 4,7%. Muito longe, portanto, dos 15,3% do período 2002-2008, os sete anos de ouro que se seguiram ao fim da guerra, em 2002, e que colocaram o País nos radares económicos internacionais.

O forte dinamismo da economia angolana a seguir a 2002, foi impulsionado por um cocktail composto por petróleo caro e produção de crude em alta. Este tónico proporcionou a entrada de vultuosos recursos financeiros que, complementados pelos empréstimos obtidos junto da China, financiaram vários programas de reconstrução nacional. Por último, mas não menos importante, a economia angolana beneficiou do facto de a base de partida ser muito baixa. Muitos factores produtivos, incluindo, recursos humanos, estavam desempregados devido à guerra que devastou o país.

A partir de 2008, os pilares do milagre económico angolano começaram a ruir. Os rendimentos marginais decrescentes da conquista da paz e o esgotamento de factores produtivos anteriormente desempregados seriam por si só suficientes para reduzir o ritmo de crescimento do país. Como se isto não bastasse Angola teve de enfrentar os efeitos colaterais da crise financeira internacional. Efeitos que começaram por ser desvalorizados pelas autoridades nacionais porque, alegadamente, o sistema financeiro angolano não estava exposto a activos tóxicos.

A partir de 2009, à medida que a economia mundial recuperava da recessão, mas também por factores de natureza geopolítica, como as convulsões no Norte de África, o crude voltou aos preços do pré-crise. Os petrodólares que diariamente entram em Angola graças ao petróleo caro ajudaram a equilibrar as contas públicas e externas, mas ainda não foram suficientes para voltar a colocar a economia nacional nos Carris.

O dinheiro não chega para tudo e o governo parece ter privilegiado numa fase inicial a regularização das dívidas em atraso e, paulatinamente, começa a retomar projectos de investimentos colocados na gaveta na sequência da crise de liquidez do Estado angolano. Como recomenda o FMI, outra fatia importante dos petrodólares entrados no país está a ser canalizada para o reforço das reservas internacionais líquidas que ultrapassam já os 30 000 milhões de dólares, o que tem também ajudado à estabilidade do kwanza e ao controlo da inflação, que deverá cair em breve para um dígito.

Os progressos registados ao nível da estabilidade macroeconómica são condição necessária mas não suficiente para um crescimento acelerado e sustentado de Angola.

De acordo com todos os diagnósticos, a principal maka da economia angolana é a (falta de) competitividade. Angola ocupa uma modestíssima 139ª posição entre os 142 países do ranking de competitividade mundial 2011/2012 do World Economic Forum, tendo caído uma posição relativamente a 2010/2011.

Força de trabalho com formação inadequada, burocracia do Estado, oferta insuficiente de infra-estruturas, corrupção e dificuldades no acesso ao financiamento, são os cinco "bilos" mais problemáticos para os negócios em Angola identificados no relatório. É nestes factores de competitividade que o próximo governo deve concentrar todas as suas energias. Só assim será possível responder ao principal desafio de Angola: diversificar a economia com o objectivo de diminuir a dependência do petróleo e combater a pobreza.

A substituição de importações é uma das consequências naturais de uma diversificação económica bem sucedida. Sendo Portugal o principal fornecedor de bens de consumo do mercado angolano, as suas empresas terão de se acautelar e preparar para um novo ciclo nas relações com Angola que passa por produzir localmente muitos dos produtos actualmente exportados.

Uma das bandeiras do provável vencedor das eleições, o MPLA, na campanha eleitoral foi a promessa de privilegiar os empresários angolanos no processo de diversificação da economia tendo para o efeito lançado este ano um vasto programa de apoio ao empreendedorismo nacional.

Goste-se ou não, este "proteccionismo", que reúne o consenso de toda a oposição, veio para ficar. O que quer dizer que o passaporte para as empresas portuguesas entrarem no mercado angolano são as parcerias com as congéneres locais.

Jornalista e consultor editorial do semanário angolano "Expansão"
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