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Baptista Bastos b.bastos@netcabo.pt 12 de Novembro de 2004 às 13:59

A Imprensa como metáfora

«Esta terra, que tamanho horror tem à palavra escrita»

Oliveira Martins - «Jornal».

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Um artigo de José António Saraiva, publicado no último número do «Expresso», vaticinava o óbito mais ou menos próximo do «Diário de Notícias». O extraordinário articulista não aduzia razões, as mais elementares, que sustentassem a inquietante afirmação: «A Agonia do DN». Já lhe responderam a preceito. Se aludo e qualifico o texto é porque ele permite, acaso, discorrer sobre as circunstâncias.

A crise na Imprensa, que o episódio Marcelo e os alvoroços naquele matutino desencadearam, advém de eventualidades a seguir ao 25 de Abril. Dominados pelo turbilhão dos acontecimentos, pelas opções ideológicas dos componentes das Redacções, e pela pressão da luta de classes e dos poderes do momento, não soubemos, por inépcia e emoção, criar o que os melhores de nós ambicionavam: um corpo de jovens jornalistas que recapitulasse, reabilitando, as melhores tradições da Imprensa portuguesa.

Recordo-me de que, na ocasião, escrevi, no «Diário Popular», um artigo em que pedia aos leitores nos ajudassem a escrever em liberdade. Admito o romantismo da proposição e o patético do apelo, mas não me arrependo do que disse. Pelo contrário.

Aos poucos, aqueles de nós que, de uma forma ou de outra, haviam desafiado os poderes de então, foram excluídos da Imprensa, não só traídos pelas «conjunturas» como, também, em numerosos casos, por camaradas de profissão. É bom que se saiba: a Imprensa, mesmo nos mais dificultosos tempos, noticiava em metáfora o que nos acontecia no real, a nós, os que somos a massa resignada de uma história que começa a não ter pés nem cabeça. A censura ajudava a vender os jornais. O leitor aguardava o que escrevíamos em código, decifrava, e espiava a nossa integridade profissional e moral. Foi o leitor que nos escolheu, que erigiu alguns dos nossos nomes à categoria de busto.

Quem deu aura a certas assinaturas não foram os proprietários, os directores, os chefes de Redacção; nada disso. E eles bem queriam dispor de esse poder selectivo. Foram os leitores e a censura. Os primeiros esperavam a nossa subtileza e a destreza na palavra amordaçada. A segunda, involuntariamente, ajudou-nos a ser imaginativos e criativos. Todavia, não esvaziemos o conteúdo em favor da superfície: a censura espicaça o engenho mas corrói, aniquila lentamente as energias, amolece os espíritos; e o leitor é volátil nas suas afeições: um monstro devorador que, saciado, facilmente olvida aqueles que fugazmente amou.

Naqueles tempos, o jornalismo talvez não se preocupasse muito com a deontologia: estava mais inclinado para a ontologia, para a cara dos outros, para o viver dos que viviam ao nosso lado - o modo de se dizer que eles, nós, todos fazíamos parte do país negado. Digo que esse jornalismo de mãos atadas e frases cosidas dispunha de homens íntegros, que persistiam em ser livres, que sabiam de palavras, que driblavam a censura e haviam aprendido a registar o sopro da vida quotidiana - coisa que se perdeu, não sei se irremediavelmente.

Houve quem desrespeitasse os princípios e traísse os valores rudimentares do ofício. Não me sento no banco das testemunhas de defesa ou de acusação. Porém, esses que tais sobrenadavam no desprezo e no opróbrio. O fascismo foi um empreendimento de dissolução das vontades. Se muitos vacilaram e capitularam, outros não separaram o ideal de justiça da ânsia de liberdade. Quisemos ensinar isso aos que vinham tomar o nosso lugar na estafeta e continuar a difícil corrida de obstáculos.

Será desonesto ocultar este facto: os jornais portugueses de hoje não são o reflexo de um estudo profissional rigoroso e alargado, e muito menos o resultado de uma decisão moral. Abandonaram o denominador comum da realidade social e, por ignorância, inépcia, incompetência ou esquecimento deliberado não colocam nas suas páginas os problemas gerais da sociedade portuguesa. Um jornalismo organizado a partir das agendas de cada um, dos telefonemas, das conivências políticas, e, também, das «sondagens», da entrevista encomendada, do favorecimento a um grupo.

Os casos de censura, de obediência ao poder, de substituições apressadas nos órgãos de decisão dos jornais registados nas últimas semanas, talvez possam suscitar uma discussão ampla. Talvez. Não o creio; talvez. O artigo do arquitecto Saraiva não contribuiu, em nada, para esse debate necessário. Aliás, o arquitecto Saraiva nunca contribuiu, seriamente, para coisíssima nenhuma de sério.

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