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Alexandra Franco 03 de Março de 2009 às 11:27

A inflação em Portugal: um resultado da convergência real?

A economia portuguesa, assim como a de outros países europeus experienciou um episódio de prolongada apreciação real durante mais de uma década. Este fenómeno tem sido considerado responsável por problemas estruturais tais como a falta de competitividade ou a existência de um significativo défice da conta corrente.

A economia portuguesa, assim como a de outros países europeus experienciou um episódio de prolongada apreciação real durante mais de uma década. Este fenómeno tem sido considerado responsável por problemas estruturais tais como a falta de competitividade ou a existência de um significativo défice da conta corrente. Assim, são inúmeras as opiniões que sugerem a necessidade de uma desvalorização para restaurar a competitividade e reduzir a dívida externa. Como Portugal pertence a uma união monetária, esta desvalorização não é possível. Assim, a evolução dos salários reais torna-se o foco das políticas económicas. No entanto, o crescimento dos salários reais em Portugal não é actualmente significativo, pelo que a sua redução seria uma política difícil de implementar.

Em contraste com esta análise encontra-se o chamado efeito de Balassa-Samuelson. Durante muitos anos foi considerada a hipótese de que se o aumento dos preços em Portugal, em comparação com os seus parceiros comerciais, resultasse do crescimento da produtividade relativa do País, então pelo menos parte da apreciação real seria um resultado directo do processo de convergência real, pelo que não implicaria uma perda de competitividade. Esta análise baseava-se sobretudo no resultado de estudos anteriores ao início da União Monetária Europeia. Mas será que, actualmente, num contexto de tão elevada integração económica, essa relação positiva entre a produtividade e os preços se mantém?

A análise dos dados sobre os preços e a produtividade do trabalho demonstra que esta hipótese, pelo menos no período de 1995 ao início de 2008, não se verifica. Na verdade, desde 2004, embora a economia portuguesa tenha mantido um crescimento positivo da produtividade do trabalho relativamente aos parceiros comerciais, a inflação relativa tem-se mantido aproximadamente constante. Por um lado, este resultado implica que a apreciação real da economia portuguesa face aos seus parceiros comerciais poderá já não ser um problema. Por outro, permite-nos também concluir que o País terá provavelmente sofrido uma perda de competitividade até ao fim de 2003. Para restabelecer a competitividade da economia portuguesa torna-se então imperativo fomentar um maior crescimento da produtividade. No entanto, evitar e explicar novos períodos de prolongada apreciação será difícil enquanto os determinantes da inflação permanecerem incompreendidos. Durante mais de uma década, a instituição da União Europeia tem mudado bastante a economia global, tornando difícil modelizar o comportamento dos preços nos Estados-membros.

De facto, é provável que no novo ambiente económico, cada vez mais a inflação em Portugal seja determinada pela inflação média na Zona Euro, com alguma margem para a influência da política fiscal. Neste panorama, é essencial a definição de uma política fiscal sustentável, não apenas como prevenção para novos episódios de apreciação real, mas também para assegurar o respeito do Pacto de Estabilidade e a credibilidade do Estado português.

Em suma, é provável que, actualmente, um novo episódio de apreciação real em Portugal não tenha origem na convergência do rendimento do País, mas sim em factores do lado da procura. Por outro lado, é possível que o diferencial da inflação entre Portugal e os seus parceiros comerciais, na sua maioria membros da zona euro, tenda a tornar-se insignificante.
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