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A nave dos loucos

Animado com as sondagens o PSD anda a pedir ideias avulsas a alguns génios locais. A ideia é, em si mesma, péssima. A experiência mostra que existe muita gente para "dar" ideias, mas é raro surgir alguma que realmente se aproveite.

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Em campanha, políticos e partidos, recorrem com frequência a este sistema. Dá imagens na televisão, mas a eficácia é nula. Fica-se com uma montanha de propostas banais à mistura com algumas francamente delirantes. Mas pior. Aqueles que oferecem ideias, que tomam invariavelmente por excecionais, ficam à espera da sua concretização. Como isso raramente sucede, de generosos rapidamente passam a ressabiados.

Esta semana o PSD foi vítima do exercício. Chamou três sumidades a uma sala com a palavra Alternativa. A coisa oscilou entre a sitcom e o susto.


Villaverde Cabral sugeriu que o PSD apresente o mais depressa possível uma moção de censura. Com o objetivo de deitar abaixo o governo e marcar eleições? Não. A genial ideia seria obrigar o Bloco a salvar o PS. Ficou por se perceber o que ganharia o PSD com isso, já para não falar do país.

Ernâni Lopes propôs cortar os salários da administração pública em 20 ou mesmo 30%. "A cru, sem explicar nada". Para além do peculiar entendimento de democracia, em coerência também não explicou qual seria o efeito de uma tal medida na economia e no consumo. Nem referiu o que fazer com a agitação social que inevitavelmente sucederia. Tropa nas ruas? A cru?


Mas a proposta mais caricata veio de Campos e Cunha que se tornou conhecido porque esteve quatro meses no governo, quatro. Como única medida digna de registo dessa vertiginosa passagem, deixou uma carta de demissão. Agora propõe que os votos em branco contem para a eleição de deputados imateriais. Ou seja, na assembleia passariam a existir alguns lugares vazios representativos do niilismo nacional. Ficou por explicar qual seria o sentido de voto desses deputados transparentes. Abstenção ou voto contra? E numa moção de censura não devia ser a favor?


No final da alucinada sessão os deputados do PSD estavam de boca aberta e alguns bastante preocupados. Queriam semear ideias, colheram tempestades. Terão pensado que foi azar na escolha. Calhou-lhes três extravagantes mentais. Mas é bom que se preparem. Não vai ser fácil encontrar gente sensata na legião de catastrofistas que hoje saltita de canal em canal de televisão.

Nestes últimos anos Portugal encheu-se de exaltados de toda a espécie. Formam um pequeno mas ruidoso exército de enfurecidos. Desdobram-se em escritos e declarações, tendo por base uma técnica linear: desvalorizar tudo o que é positivo e sobrevalorizar o negativo. A oposição (qualquer que ela seja) gosta. É bom para a propaganda. Só que é muito mau para a discussão objetiva. Quando a má-língua e o irracionalismo se sobrepõem aos factos e aos argumentos fundamentados não há debate que resista.

Ainda recentemente um economista afirmou que Portugal está hoje pior do que há cinquenta anos atrás, porque nessa altura tinha ouro no banco e agora tem dívidas. Esqueceu-se da miséria, do atraso e do país medieval de então. Mas claro isso são ninharias. Medina Carreira, a mais apreciada pitonisa da desgraça da atualidade, afirmou que a justiça no tempo de Salazar era melhor do que a de hoje. Sorte dele, e sobretudo dos muitos portugueses que felizmente não sabem nada sobre os tribunais plenários ou da falta de liberdade.


Mas não é só o disparate que anda à solta. A estupidez também vai fazendo o seu caminho. Ainda esta semana foram várias as vozes que se manifestaram contra o aumento de vagas no ensino superior. Com o sublime argumento de que existe muito desemprego. Ou seja, a ignorância seria mais competitiva. Não é.


Existe em Portugal muita gente, que independentemente das suas posições políticas, é competente e objetiva. Mas o ambiente não está propício para a seriedade. Os media e os partidos da oposição preferem os loucos. Compreende-se. Dão mais espetáculo.


Este artigo de opinião foi escrito em conformidade com o novo Acordo Ortográfico.

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