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A nostalgia da paixão assolapada

Quanto tinha 11 ou 12 anos, uma das imagens que a minha mãe se recorda de mim é ver-me deitado no chão, com o Jornal de Notícias à minha frente, a ler atentamente as cotações da Bolsa portuguesa.

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Quanto tinha 11 ou 12 anos, uma das imagens que a minha mãe se recorda de mim é ver-me deitado no chão, com o Jornal de Notícias à minha frente, a ler atentamente as cotações da Bolsa portuguesa. Para ela, era difícil de perceber como é que um miúdo daquela idade podia gostar de ver as cotações. Mas sempre me atraiu saber que todos os dias havia pessoas que ganhavam e perdiam dinheiro na Bolsa e seguia, religiosamente, as cotações do dia anterior.


Durante os anos seguintes, mantive esse ritmo de acompanhamento diário das cotações até que, em 1992, numa das primeiras semanas na Faculdade de Economia do Porto, vi um grupo de estudantes a rodear um computador na biblioteca. Aproximei-me e descobri que era um terminal da Reuters que apresentava as cotações e notícias em tempo real. Numa época em que a Internet em Portugal era algo inacessível para o comum dos mortais, poder seguir as cotações e notícias em tempo real parecia um sonho para mim.


Umas semanas mais tarde, percebi que a ideia de completar o curso em 5 anos é que era um sonho pois não conseguia sair de perto daquele terminal antes das 16h30, hora a que a Bolsa portuguesa fechava e só a partir daí é que as aulas passavam a ser prioritárias. Eram tempos de uma aprendizagem galopante, em que identificava de cor cada movimento do mercado, em que procurava perceber a relação dos seus movimentos em função das notícias, dos gráficos ou de outra coisa qualquer. Procurava explicações para tudo e tentava perceber o porquê de todos os movimentos.


Desde aí, a minha vida passou a estar centrada nos mercados financeiros, de manhã à noite. E fui percebendo que muitos dos movimentos dos mercados, no curto prazo, não têm qualquer explicação. É importante perceber como funcionam os mercados, mas quando procuramos exaustivamente explicações para movimentos que não se podem explicar, estamos a desperdiçar tempo, energia e concentração para aquilo que verdadeiramente importa - a nossa estratégia.


Hoje fico contente quando chega o fim-de-semana, para poder fugir dos mercados e dedicar-me a tudo aquilo que gosto de fazer. Mas, há 20 anos atrás, os fins-de-semana eram passados na ânsia que chegasse segunda-feira para haver Bolsa de novo e voltar àquele entusiasmo e paixão que fazia com que as horas do mercado voassem e soubesse a pouco sempre que o relógio chegava às 16h30.


Tenho alguma nostalgia desses tempos. Não dos meus 11 anos em que não conseguia perceber bem porque é que as acções subiam e desciam. Mas, sobretudo, dos meus 18 anos em que vivia os mercados como uma paixão assolapada e em que achava que ia descobrir a razão de ser para tudo e em que isso era mais importante do que ganhar dinheiro. Hoje, 20 anos depois, cada vez mais me convenço que a busca incessante para as justificações causais dos movimentos dos mercados é um entrave a ganhar dinheiro em Bolsa. Deixe para os economistas e para os teóricos a ambição de quererem encontrar os porquês de tudo. Centre-se em algo em que eles não são especialistas - ganhar dinheiro em Bolsa.


Quanto mais conheço os investidores, mais percebo que os sossega mais perceber a causa das coisas do que ganhar dinheiro. Quanto mais conheço os investidores, constato que o desejo de terem razão (o seu ego) é muito superior à vontade de ganhar dinheiro. Quanto mais conheço os investidores, mais concluo que, apesar da maioria dizer (e acreditar) que negoceia para ganhar dinheiro, em boa verdade são outras coisas que os movem: o desafio intelectual, a adrenalina ou o gosto pela competição. E, na hora da verdade, as decisões são tomadas em função daquilo que verdadeiramente os move.


Há 20 anos atrás, as férias tinham um lado doce e amargo. E o travo amargo era o afastamento dos mercados que tanto prazer me davam diariamente. E, naturalmente, que não lhes conseguia dizer adeus e os dias de férias eram constantemente interrompidos pela consulta das cotações no intervalo dos jogos de vólei de praia, pela negociação nos dias de céu mais cinzento, pela análise nas noites em que a atracção pelo mercado era maior do que a vontade de gozar as férias.


Hoje, 20 anos depois, as férias são recebidas de braços abertos para deixar os mercados para as costas. As luzes vermelhas e verdes que piscam durante todo o dia nestes ecrãs dos monitores dão lugar às tardes na praia. As noites passadas a analisar os gráficos dão lugar aos amigos e a quem mais gostamos. As páginas em branco que tanto angustiam quem tem este compromisso com os leitores dão lugar à leitura de livros que nada têm a ver com os mercados. Sabe tão bem passar de escriba a leitor.


Não nego que, no final do dia, quase sempre espreito o que aconteceu aos mercados. Mas aquelas férias constantemente interrompidas pelo senhor Mercado fazem parte do passado. Um passado de paixão assolapada. Que o tempo se encarregou de a transformar num amor mais sereno. Com direito a férias e tudo.


Regresso dentro de semanas. Aos mercados e à vossa companhia.

 


P.S.: Como referência para estas semanas de ausência, digo-vos que me mantenho neutro em relação à Bolsa portuguesa e só volto a vestir o meu fato de touro caso o PSI quebre, em alta, a zona dos 5500/5700 pontos. E desenterro o fato de urso - que há mais de um ano está guardado - caso o PSI quebre, em baixa, a zona dos 5100/5200 pontos.

 

 

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Analista Dif Brokers
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