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João Carlos Barradas 15 de Novembro de 2011 às 23:30

A Ordem da Liberdade prospera em Pequim

Um dos mais famosos artistas chineses, Ai Weiwei, conseguiu em menos de duas semanas reunir uma soma superior a nove milhões de yuans (um milhão de euros) para contestar um processo de execução fiscal graças a donativos particulares.

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Um dos mais famosos artistas chineses, Ai Weiwei, conseguiu em menos de duas semanas reunir uma soma superior a nove milhões de yuans (um milhão de euros) para contestar um processo de execução fiscal graças a donativos particulares.

Ai Weiwei, conhecido internacionalmente pela sua contribuição como designer para a concepção do estádio em forma de ninho onde tiveram lugar as cerimónias de abertura e encerramento das Olimpíadas de Pequim, foi intimado a pagar 15 milhões de yuans (1,7 milhões de euros) em impostos atrasados, coimas e multas.

O escultor fora detido em Abril durante 81 dias por alegados "crimes económicos" e ao receber no início deste mês a intimação do fisco de Pequim denunciou o processo como "acto de perseguição política".

A angariação de fundos dinamizada através da internet levou a que começassem imediatamente a chegar milhares de contributos ao estúdio de Ai Weiwei na capital chinesa.

Solidariedade e contestação
Ao pagar uma caução de 8,45 milhões de yuans (981.000 euros) na data limite de 15 de Novembro Ai Weiwei passou a poder contestar, em princípio, as exigências do fisco, ainda que tenha declarado publicamente não acreditar que as autoridades venham a aceitar as alegações dos seus advogados.

O artista solicitou que cessassem as ofertas de dinheiro – que já mobilizaram mais de 30 mil doadores, segundo afirmou – e prometeu devolver todos os contributos identificados de forma, aliás, a evitar um processo por "angariação ilegal de fundos".

A campanha de solidariedade para com Ai Weiwei – a par de acções em apoio ao advogado invisual Chen Guangcheng em prisão domiciliária em Dongshigu, no leste da China, por denúncias de abusos de poder contra cidadãos da sua província natal de Shandong – assinala uma nova vaga de contestação promovida por círculos intelectuais.

Ai Weiwei, cada vez mais estridente na crítica e escárnio dos poderes vigentes, é um caso paradigmático da alienação de crescente número de intelectuais face ao regime.

Filho da desgraça e do privilégio
Nascido em Pequim, em 1957, o artista partilhou o exílio com os pais nas províncias de Heilongjiang e Xinjiang, os extremos nordeste e noroeste da China.

O seu pai, o poeta comunista Ai Qing, um dos introdutores do verso livre em chinês, caíra em desgraça em 1958 numa campanha de perseguição a intelectuais arredios ao maoísmo.

Ai Qing regressaria a Pequim depois da queda do "Bando dos Quatro" em 1976 e voltaria a publicar poesia a partir de 1978, tornando-se uma figura grada do regime liderado por Deng Xiaoping até morrer em 1996 rodeado de honras de estado.

A bem do entendimento com Pequim e por via de interesses de Macau, o poeta seria, aliás, inopinadamente agraciado com a Ordem da Liberdade da República Portuguesa em Janeiro de 1990, numa altura em que a liderança chinesa era execrada no rescaldo da repressão de Tiannanmen.

Mário Soares, já durante o seu segundo mandato, imporia finalmente, durante uma visita oficial a Pequim em 1995, as insígnias de Oficial da Ordem da Liberdade a Ai Qing, o único cidadão chinês distinguido por Portugal por "serviços relevantes prestados em defesa dos valores da Civilização, em prol da dignificação da Pessoa Humana e à causa da Liberdade".

O estatuto privilegiado de Ai Qing – "um fóssil vivo" que ansiava por "agir, mexer-se, expandir-se", conforme escreveu num dos seus primeiros poemas após o regresso do exílio – permitiu ao filho inscrever-se em 1978 na Academia de Cinema de Pequim, onde começou a destacar-se nos círculos de arte de vanguarda, e prosseguir estudos entre 1981 e 1993 nos Estados Unidos.

Os dissidentes são criminosos
Da escultura à fotografia Ai Aweiwei impôs-se como um dos mais reputados artistas da cena internacional, mas a sua intervenção política colocou-o em rota de choque com as autoridades comunistas.

Após o terramoto de 2008 na província de Sichuan, no centro-sul da China, que provocou mais de 60 mil mortos, Ai Weiwei foi uma das vozes mais proeminentes na denúncia da corrupção e incúria administrativas responsáveis pela deficiente qualidade de construção que agravou a catástrofe.

As críticas crescentes de Ai Weiwei ganharam expressão nas suas permanentes intervenções no universo digital e um bom exemplo do tom do artista encontra-se na recente colectânea editada nos Estados Unidos (Lee Ambrozy, ed., "Ai Weiwi`s Blog: Writings, Interviews, and Digital Rants, 2006-2009", MIT Press, Cambridge, Ma.) em que se pode ler esta tirada de Fevereiro de 2010:

"1. Os dissidentes são criminosos;

2. Só os criminosos têm opiniões dissidentes;

3. Os criminosos distinguem-se dos não-criminosos por partilharem opiniões dissidentes;

4. Se pensas que a China tem dissidentes és um criminoso;

5. A razão da não-existência de dissidentes na China reside no facto de tais pessoas serem efectivamente criminosos;

6. Alguém expressa opinião dissidente em relação à minha afirmação?"

Sem remissão
O filho do poeta Ai Qing é agora um dissidente sem remissão tal como o crítico literário Liu Xiaobo (Prémio Nobel da Paz 2010), detido por "incitamento à subversão", e tantas outras figuras da intelectualidade chinesa.

A nova vaga de repressão, na sequência de temores agitados pelas revoltas árabes, acentua a crise de legitimidade política na China na altura em que uma nova geração de dirigentes comunistas se prepara para assumir as mais altas instâncias do poder.

Por ironia do destino o filho dissidente de um poeta do regime agraciado por Mário Soares com a Ordem da Liberdade presta agora serviços relevantes à causa da Liberdade.



Jornalista
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