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Mário Negreiros 31 de Janeiro de 2006 às 13:59

A Palestina, a corrupção e as outras coisas

Se o voto no Hamas foi um voto «contra» – e só consigo imaginar que seja muito «contra» o voto dado a um grupo político cujas manifestações de rua costumam ser acompanhadas por tiros de metralhadora – terá sido contra Israel ...

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Se o voto no Hamas foi um voto «contra» – e só consigo imaginar que seja muito «contra» o voto dado a um grupo político cujas manifestações de rua costumam ser acompanhadas por tiros de metralhadora – terá sido contra Israel, com certeza, mas também contra a Fatah e, mais especificamente, contra a corrupção que vem minando a Autoridade Palestiniana nas mãos da Fatah. E até apostaria que a derrota imposta à Fatah mais poderá ser atribuída à corrupção do que às suas posições ditas «moderadas» em relação a Israel.

A ser verdade o que digo, a eleição do Hamas é mais uma consequência do desleixo com que os Grandes Juízes da Humanidade (Estados Unidos e Europa) encaram o problema da corrupção no Terceiro Mundo. Fala-se dela como se fosse um custo a mais a considerar nos investimentos a fazer nessa parte do Planeta ou, no máximo, como um entrave à justa distribuição de renda e ao desenvolvimento económico e social dos países corruptos. Mas é mais do que isso.

Um exercício esclarecedor é buscar o relatório da organização Transparência Internacional, que avalia a percepção da corrupção em 145 países, e confrontá-lo com os relatórios da Amnistia Internacional sobre violação de Direitos Humanos.

Em 145º lugar (o mais corrupto da lista), encontramos o Haiti, também presente nos relatórios da Amnistia: «relatos de tortura e maus tratos por forças de segurança, polícia e outras autoridades estatais; pessoas ‘desaparecidas’ ou permanecidas ‘desaparecidas’; execuções extra judiciais/mortes ilegais confirmados ou possíveis». Em 144º vem Bangladesh: «relatos de tortura e maus tratos por forças de segurança, polícia e outras autoridades estatais; pessoas detidas e presas arbitrariamente, ou em prisão sem acusação ou julgamento, pessoas sentenciadas à morte». Em 143º na lista dos mais corruptos, aparece a Nigéria: «sérios abusos de direitos humanos cometidos por grupos de oposição armada como assassínios deliberados ou arbitrários de civis, tortura e sequestro; execuções extra judiciais; pessoas sentenciadas à morte, pessoas que reportaram ser vítimas de tortura e maus tratos por forças de segurança, polícia e outras autoridades estatais». Myanmar vem em 142º: «execuções extra judiciais/mortes ilegais confirmadas ou possíveis. O Chade, em 141º na lista da Transparência Internacional, também não deixa de ser citado nos relatórios da Amnistia: «sérios abusos de direitos humanos cometidos por grupos de oposição armada como assassínios deliberados ou arbitrários de civis, tortura e sequestro».

A Autoridade Palestiniana aparece em 111º, entre a Líbia e o Equador na lista da corrupção (é, portanto, o 34º mais corrupto) e, nos relatórios da Amnistia é citada por: «execuções extra judiciais, pessoas que reportaram ser vítimas de tortura e maus tratos por forças de segurança, polícia e outras autoridades estatais; pessoas detidas e presas arbitrariamente, ou em prisão sem acusação ou julgamento; pessoas sentenciadas à morte; sérios abusos de direitos humanos cometidos por grupos de oposição armada como assassínios deliberados ou arbitrários de civis, tortura e sequestro».

Quem fecha os olhos à corrupção fecha os olhos a muito mais do que à corrupção. Diante de tantas premências, a corrupção na Palestina sempre acabou por ser menosprezada como factor de instabilidade. E, no entanto, tenho muitas dúvidas de que o Hamas estivesse onde está não fosse a corrupção uma marca associada à Fatah.
 
PS: Estacionar o carro em cima do passeio é corromper.

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