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Dani Rodrik 19 de Maio de 2016 às 20:30

A política da raiva

A falta de vontade dos políticos em oferecer soluções para as inseguranças e desigualdades deste era hiper-globalizada abre espaço político para os demagogos com soluções fáceis.

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Talvez a única coisa surpreendente da reacção populista que dominou a política de muitas democracias avançadas é que tenha demorado tanto a chegar. Mesmo há algumas semanas, era fácil de prever que a falta de vontade dos principais políticos em oferecer remédios contra as inseguranças e desigualdades da nossa era hiper-globalizada abria espaço político para os demagogos com soluções fáceis. Nessa época, foram Ross Perot e Patrick Buchanan; actualmente, temos Donald Trump, Marine Le Pen, e outros.


A história nunca se repete exactamente, mas as suas lições não deixam de ser importantes. Devemos lembrar que a primeira era da globalização, que atingiu o seu pico nas décadas anteriores à Primeira Guerra Mundial, acabou por produzir uma reacção política ainda mais severa.

A evidência histórica tem sido bem resumida pelo meu colega de Harvard, Jeffry Frieden. No auge do padrão-ouro, argumenta Frieden, os principais intervenientes políticos tiveram que minimizar a importância da reforma social e da identidade nacional porque deram prioridade às ligações económicas internacionais. A resposta assumiu duas formas fatais no período entre guerras: os socialistas e os comunistas escolheram a reforma social, enquanto os fascistas escolheram a reafirmação nacional. Ambos os caminhos se afastaram da globalização e propunham um fecho económico (e coisas muito piores).

A reacção actual provavelmente não chegará a tanto. Sem importar quão custosos tenham sido os transtornos relacionados com a Grande Recessão e a crise do euro, empalidecem em comparação com os da Grande Depressão. As democracias avançadas criaram - e mantêm (apesar dos recentes recuos) - amplas redes de segurança social na forma de apoios ao desemprego, reformas e benefícios familiares. A economia mundial conta agora com instituições internacionais funcionais - tais como o Fundo Monetário Internacional e a Organização Mundial do Comércio (OMC) - que não existiam antes da Segunda Guerra Mundial. Por último e não menos importante, os movimentos políticos extremistas tais como o fascismo e o comunismo têm sido em grande medida desacreditados.

Ainda assim, os conflitos entre uma economia hiper-globalizada e a coesão social são reais e as principais elites políticas ignoram-nos por sua conta e risco. Como argumentei no meu livro de 1997 ("A globalização foi longe demais?"), a internacionalização dos mercados de bens, serviços e capital abre uma brecha entre os grupos cosmopolitas, profissionais e habilitados que podem aproveitá-la e o resto da sociedade.

Dois tipos de divisões políticas são exacerbados neste processo: uma divisão de identidade, que gira em torno da origem, etnia ou religião e uma divisão de rendimentos, vinculada às classes sociais. Os populistas baseiam o seu apelo numa ou noutra dessas divisões. Os populistas de direita como Trump fazem política da identidade. Os populistas de esquerda como Bernie Sanders enfatizam o fosso entre os ricos e os pobres.

 

Em ambos os casos, fica claro quem é o "outro" para o qual a raiva pode ser dirigida. Mal consegue fazer face às despesas? São os chineses que têm estado a roubar os nossos empregos. Perturbados com o crime? São os mexicanos e os outros imigrantes que trazem os seus gangues para o país. Terrorismo? Pois, são os muçulmanos, claro. Corrupção política? O que esperar quando os grandes bancos financiam o nosso sistema político? Ao contrário das principais elites políticas, os populistas podem facilmente assinalar os culpados pelos males das massas.

Claro, os políticos dominantes estão comprometidos porque foram eles que tomaram as decisões todo este tempo. Mas estão também imobilizados pela sua narrativa central, que cheira a inacção e impotência.

Esta narrativa coloca a culpa pela estagnação dos salários e pelo aumento da desigualdade nas forças tecnológicas que estão fora do nosso controlo. Trata a globalização e as regras que a sustentam como inexoráveis e inevitáveis. O remédio que oferece, o investimento na educação e capacidades, promete poucas recompensas imediatas e daria frutos daqui a alguns anos, no melhor dos cenários.

Na realidade, a economia mundial actual é o produto de decisões explícitas que os governos tomaram no passado. Foi uma escolha não se ficar pelo Acordo Geral sobre Tarifas e Comércio (GATT, na sigla anglo-saxónica) e construir a muito mais ambiciosa - e intrusiva - OMC. Da mesma forma, será uma escolha ratificar os mega-acordos comerciais do futuro como a Parceria Trans-Pacífica e a Parceria Transatlântica do Comércio e Investimento.

Foi escolha dos governos abrandar as normas financeiras e procurar a completa mobilidade transfronteiriça de capital, tal como foi uma escolha manter estas políticas quase intactas, apesar da tremenda crise financeira mundial. E, como Anthony Atkinson nos lembra no seu livro sobre desigualdade, mesmo as alterações tecnológicas não estão imunes à capacidade de acção do governo: há muito que os responsáveis políticos podem fazer para influenciar a direcção das alterações tecnológicas e assegurar que geram mais empregos e maior igualdade.

A atracção dos populistas é que dão voz à raiva dos excluídos. Oferecem uma narrativa grandiosa e soluções concretas, mesmo quando são enganosas e frequentemente perigosas. Os principais políticos não vão recuperar o terreno perdido até que também eles ofereçam soluções sérias que proporcionem espaço para a esperança. Devem deixar de se esconder por trás da tecnologia ou da globalização inevitável, estar dispostos a ser audazes e encarar reformas de larga escala que afectem a forma como funcionam as economias locais e a mundial.

Se uma das lições da história é o perigo dos estragos da globalização, outra é a maleabilidade do capitalismo. Foram o New Deal, o Estado do bem-estar e a globalização controlada (sob o regime de Bretton Woods) que acabaram por revitalizarar as sociedades orientadas pelos mercados e levaram ao "boom" do pós-guerra. Estes feitos não aconteceram com ajustes superficiais e pequenas modificações das políticas actuais, mas com uma engenharia institucional radical.

 

Políticos moderados, tomem nota.

 

Dani Rodrik, professor de Economia Política Internacional na John F. Kennedy School of Government da Universidade de Harvard, é o autor de "Economics Rules: The Rights and Wrongs of the Dismal Science".

 

Direitos de Autor: Project Syndicate, 2016.
www.project-syndicate.org
Tradução: Raquel Godinho

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