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João Costa Pinto 09 de Fevereiro de 2015 às 21:00

A política monetária única e a Grécia - (XLI)

O futuro próximo da Zona Euro está, uma vez mais, dependente da evolução da situação grega. A nossa economia, o nosso país, é parte directamente interessada.

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1. Desde que escrevi o meu último artigo para esta coluna, a crise que há cinco anos afecta económica e politicamente a Zona Euro sofreu uma aceleração, como resultado de dois acontecimentos de natureza distinta: o BCE anunciou finalmente o lançamento do seu programa de compra de activos ("quantitative easing") e na Grécia um partido da esquerda radical ganhou as eleições, com um programa que recusa continuar a aplicar a austeridade preconizada pelos credores e que se propõe renegociar a dívida soberana.

 

Depois destes dois acontecimentos, o projecto de integração monetária da Europa alterou-se profundamente, com consequências ainda difíceis de avaliar. O BCE aprovou um programa de injecção de liquidez nos mercados financeiros em que misturou preocupações e avaliações técnicas, com cedências de natureza política.

 

Por um lado, surpreendeu positivamente os mercados com a dimensão do programa, não tanto pelos montantes anunciados, mas sobretudo por afirmar que este teria a duração necessária para evitar o enraizamento de expectativas deflacionistas. Por outro, criou um precedente que na prática institucionalizou a fragmentação da política monetária única, ao limitar a 20% dos montantes de dívida soberana adquirida, a partilha do respectivo risco pela Zona Euro e ao manter os restantes 80% sob a responsabilidade dos bancos centrais nacionais.

 

O impacto potencial deste programa é de difícil avaliação, dadas as condições económicas e políticas prevalecentes na Zona Euro. As taxas de juro encontram-se já em níveis historicamente baixos e o seu reflexo sobre o consumo e o investimento depende sobretudo: do nível de repressão fiscal existente em cada economia; do comportamento dos respectivos mercados bancários que, por sua vez, reflectem a situação - de solvabilidade, liquidez e rendibilidade - em que se encontram os principais bancos que neles operam.

 

Em particular, a recusa da utilização de políticas orçamentais dirigidas ao estímulo ao crescimento impede que mesmo as economias com situações fiscais consolidadas tirem partido das taxas de juro baixas para financiar programas de investimento, reduzindo o impacto da intervenção do BCE sobre a procura global.

 

Em contrapartida, a anunciada acção do BCE vai continuar a pressionar o valor do euro, melhorando a competitividade das exportações da Zona Euro. Pelo menos enquanto esta evolução não é contrariada por operações especulativas sobre o euro - de que as operações chamadas de "carrytrade" que procuram tirar partido dos diferenciais de taxa de juro e de taxa de câmbio são um exemplo - ou por uma mudança de atitude dos EUA em relação à apreciação do dólar.

 

2. No entanto, além destes efeitos, o programa do BCE apresenta-se com implicações políticas muito complexas. Ao limitar a partilha do risco da dívida soberana que vai adquirir, o BCE sabe que a questão da dívida continua em aberto na Zona Euro, afectando as economias periféricas mais frágeis.

 

Ao excluir a dívida da Grécia do programa, o BCE - de forma deliberada ou não - sabe que estreitou a margem de manobra e que reduziu os tempos de decisão, tanto da Zona Euro como da Grécia. Na prática, remeteu a questão grega para os governos e acelerou a crise financeira que condiciona a economia e o governo deste país. Em particular, sabe que o impacto sobre o frágil sistema bancário grego é potencialmente devastador. É aliás extraordinário e revelador de uma grande coragem política ou de uma enorme ingenuidade que o novo governo grego avance com este processo sem implantar alguma forma de controlo dos movimentos de capitais.

 

Na verdade, o futuro próximo da Zona Euro está, uma vez mais, dependente da evolução da situação grega. A nossa economia, o nosso país, é parte directamente interessada.

 

Economista

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