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António Mendonça amend@iseg.utl.pt 25 de Outubro de 2004 às 13:59

A propósito do prémio Nobel da economia

Continua a ser grande, na economia, a distância que vai entre o que é reconhecido como importante no plano da evolução da investigação teórica e aquilo que constitui as necessidades e a prática do mundo real.

O prémio Nobel da economia foi atribuído este ano a Finn E. Kydland e Edward C. Prescot pelos seus contributos dados à análise macroeconómica dinâmica e, em particular, pelos trabalhos relacionados com a explicação das forças produtoras dos ciclos económicos - a chamada teoria dos ciclos reais ou Real Business Cycles para utilizar a expressão consagrada academicamente. Esta teoria aparece no inicio dos anos 80, mais precisamente, na sequência de um artigo dos dois laureados, «Time to build and aggregate fluctuations», publicado na revista científica Econométrica em 1982 e de um outro de Long e Plosser, «Real Business Cycles», publicado no Journal of Political Economy, em1983; e propõe-se explicar a ocorrência dos ciclos económicos a partir dos choques que podem atingir os chamados «fundamentals» da economia, designadamente as preferências dos consumidores, as tecnologias disponíveis ou as dotações em recursos dos agentes.

O sucesso inicial desta teoria explica-se, em grande medida, pelo contexto económico internacional que se viveu ao longo de toda a década de 70 e que foi marcado pela eclosão da crise económica internacional de 1974-75 e pela crise da teoria económica dominante até então de inspiração Keynesiana. Esta nova abordagem teórica dos ciclos económicos respondia a dois tipos de problemas. Por um lado fornecia uma referência teórica para a sucessão das crises de 1974-75 e de 1980-82, a partir da integração dos efeitos dos dois choques petrolíferos que as precederam - e que multiplicaram por dez o preço do barril entre Outubro de 1973 e o início de 1981 (de 3,5 para 35,2 dólares). Por outro lado, apresentava uma justificação para o esgotamento das políticas macroeconómicas que haviam sustentado o longo processo de crescimento do pós-guerra a partir da recuperação das hipóteses neoclássicas de eficácia dos mercados e de pleno-emprego de factores, cuja negação havia suportado, precisamente, a construção do edificio teórico intervencionista.

É interessante referir a existência de um curioso paralelo histórico entre o processo de afirmação da abordagem macroeconómica keynesiana e o processo de recuperação das abordagens microeconómicas do funcionamento sistema económico que caracterizam a generalidade das correntes teóricas dominantes da actualidade, entre as quais a teoria dos ciclos reais se inclui. Com efeito, não foi a solidez do edificio teórico keynesiano que levou à sua adopção generalizada como referência para o intervencionismo estatal, mas antes a incapacidade de a teoria tradicional de lidar com a extensão e a persistência dos efeitos da crise dos anos 30. Apesar de todas as incoerências e mesmo contradições reconhecidas na «Teoria Geral», as hipóteses de desemprego involuntário e de insuficiência da procura efectiva tinham mais aderência à realidade e aos problemas da época do que as hipóteses de desemprego voluntário ou de erros dos agentes, até então dominantes. Do mesmo modo, não é a superioridade teórica ou capacidade analítica das novas correntes neoclássicas que as torna particularmente aptas para lidar com os problemas actuais, mas antes a incapacidade da política económica tradicional de fazer face aos problemas gerados com a eclosão da crise dos anos 70. Neste caso, as hipóteses de antecipações racionais e da ineficácia da política económica ajustavam-se mais à situação de estagflação e de persistência do desemprego do que as hipóteses contrárias de ilusão monetária de reforço dos mecanismos de intervenção, particularmente num contexto de contradição crescente entre a internacionalização das economias e a base estritamente nacional de acção dos governos.

Talvez mais do que qualquer outra abordagem de base neoclássica, a teoria dos ciclos reais beneficiou do contexto de crise da teoria económica keynesiana e da sua incapacidade de fornecer uma explicação coerente para a dimensão e características da crise dos anos 70 e, sobretudo, para o reaparecimento da característica cíclica de evolução da economia mundial que o período de intervencionismo estatal do pós-guerra aparentemente havia controlado. Depois da crise do inicio dos anos 70, seguiu-se nova crise no inicio dos anos 80, outra no inicio dos anos e 90 e outra, ainda, no inicio do novo século cujos efeitos ainda estamos a sentir. E se a tendência dos dez anos se mantiver, podemos esperar outra crise na viragem da primeira década deste século.

Do ponto de vista analítico a teoria dos ciclos reais tem suscitado diversos tipos de reservas. Desde logo pelo modelo de representação da actividade económica que utiliza, onde não existe troca, moeda, mas simplesmente um agente isolado ou representativo, simultâneamente consumidor e produtor e que tem de decidir em cada período a partilha entre consumo e poupança que lhe permite maximizar a sua utilidade intertemporal. Não havendo qualquer tipo de interferências a economia seguirá uma trajectória de equilibrio com pleno-emprego na utilização de recursos pelo que o aparecimento dos ciclos só pode resultar da introdução no modelo de choques que afectam os gostos dos agentes, as técnicas de que dispõem ou a sua dotação inicial de recursos. Estes choques, mesmo tendo lugar no instante inicial podem afectar a escolha intertemporal do agente único do modelo e fazer aparecer os ciclos.

Mas um segundo tipo de reservas pode ser dirigido ao modo como se procura ajustar este tipo de modelos à observação da economia, com recurso a metodologias de natureza determinista e não estatística como é habitual. Dão-se valores aos parâmetros que caracterizam o agente e aos choques, de forma a que a trajectória deduzida da escolha intertemporal reproduza o melhor possível a trajectória observada - é o chamado problema da calibragem dos modelos. Trata-se, no fundo, de construir uma maquete que reproduza o mais fielmente possível a realidade observada. São modelos que não permitem fazer previsões. Eles apenas têm como objectivo simular uma evolução passada e neste sentido têm sobretudo um carácter normativo mais do que explicativo.

A razão maior do sucesso da teoria dos ciclos reais não está na sua capacidade de interpretação do funcionamento da economia real, tal como se propõe fazer, mas nas conclusões que dessa interpretação se poderão tirar para o domínio da política económica: ela deve abster-se de criar interferências que perturbem as escolhas intertemporais dos agentes ou afectem a capacidade de resposta aos choques que atinjam as bases em que assenta o funcionamento da economia pelo que, em boa verdade, deverá ser reduzida ao mínimo. É interessante notar, no entanto, que no país que viu nascer esta teoria - os Estados Unidos - estas conclusões não são levadas muito a sério pelos responsáveis pela condução da política económica cabendo, paradoxalmente, a um país em que o intervencionismo é forte - a Suécia - o reconhecimento dos contributos que terá dado para a crítica das práticas keynesianas. Talvez mais do que em qualquer outro domínio científico, continua a ser grande, na economia, a distância que vai entre o que é reconhecido como importante no plano da evolução da investigação teórica e aquilo que constitui as necessidades e a prática do mundo real.

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