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Michael Spence 13 de Maio de 2014 às 16:03

A recuperação de Espanha

A economia espanhola está a começar a atrair a atenção dos investidores – e não apenas por os preços dos activos estarem em baixa no clima actual (o que é, sem dúvida, um bom negócio para os investidores que procuram uma mais-valia a longo prazo). Apesar de haver ainda grandes problemas que é preciso superar, existe actualmente um sentimento claro de que a economia cruzou um ponto de viragem em torno do início deste ano.

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Para os cépticos, as sementes da recuperação não poderão florescer enquanto a torneira do crédito se mantiver fechada devido aos prejuízos nos balanços de muitos bancos. No entanto, ainda que o caminho do regresso ao pleno emprego e ao crescimento sustentável não se construa da noite para o dia, o progresso pode ser mais rápido do que aquilo que a maioria dos observadores espera.

 

É fácil perdermo-nos nos detalhes dos padrões da retoma económica, pelo que é útil haver um quadro sólido de avaliação do crescimento potencial. Com efeito, a economia espanhola é um caso clássico de modelo de crescimento defeituoso, seguido de uma recuperação previsível, sustentada pelas reformas políticas e desencadeada (após uma certa demora) principalmente pelo sector dos bens transaccionáveis.

 

Antes da crise, a economia espanhola dependia da procura gerada por uma bolha imobiliária assente no crédito – um modelo muito semelhante, nalguns aspectos, ao dos Estados Unidos. Assim, tanto o crescimento como o emprego tiveram lugar a expensas do lado comercial da economia. Os custos salariais unitários aumentaram de forma constante em relação à Alemanha – não apenas em Espanha, mas também em toda a Europa do Sul e em França – na década de 2000-2010, a seguir à introdução do euro.

 

A crise afectou a procura interna e o sector dos bens transaccionáveis revelou-se incapacitado, uma vez que o rápido aumento dos custos salariais unitários e o euro sobreavaliado minaram a competitividade. Além disso, os danos infligidos pela crise aos balanços dos bancos restringiram a procura ao limitarem seriamente a concessão de crédito às famílias e os empréstimos às pequenas e médias empresas.

 

Espanha não estava numa posição invejável. A rápida deterioração da situação orçamental após a crise tornou impossível qualquer resposta contracíclica substancial, ao mesmo tempo que as restrições regulatórias limitavam a flexibilidade estrutural da economia.

 

A via para a recuperação, apesar de difícil e demorada, foi relativamente clara e específica. Em primeiro lugar, os custos salariais unitários tinham de baixar para os níveis de produtividade de modo a restaurar a competitividade – um processo penoso sem o mecanismo das taxas de câmbio. Com efeito, assistimos a uma reconvergência substancial pós-crise para os níveis alemães.

 

Em segundo lugar, era necessário que tanto o capital como a mão-de-obra fluíssem para o sector dos bens transaccionáveis, onde as restrições da procura podem ir diminuindo à medida que a produtividade relativa converge. Contudo, tal como muitos outros países do Sul da Europa, a rigidez do mercado laboral e outros condicionalismos reduziram drasticamente a velocidade e aumentaram os custos do ajustamento económico estrutural, o que levou a níveis mais baixos de crescimento e emprego, especialmente para os jovens e para quem procurava o seu primeiro emprego.

 

Mas os decisores políticos espanhóis e os líderes empresariais pareceram entender a natureza dos desequilíbrios económicos anteriores à crise – e a importância do sector dos bens transaccionáveis como motor da retoma. Reconhecendo que a economia não podia beneficiar de uma restauração parcial da competitividade sem mudanças estruturais, o governo adoptou uma importante reforma do mercado de trabalho na Primavera de 2013. Foi uma reforma controversa, uma vez que, como todas as medidas desta natureza, rescindiu alguns tipos de protecção dos trabalhadores. No entanto, a protecção última é o aumento do emprego. Com algum atraso, a reforma parece agora estar a dar os seus frutos.

 

De facto, apesar de o investimento interno estar limitado pela disponibilidade de crédito, as principais multinacionais europeias e latino-americanas começaram a investir na economia espanhola, atraídas em parte pela sua melhor postura competitiva e flexibilidade estrutural e, num horizonte ligeiramente mais distante, por uma recuperação da procura interna. O capital de risco está também a regressar, não só porque as valorizações são atractivas mas também porque o crescimento potencial de Espanha parece agora concretizável.

 

Apesar de Espanha e Itália registarem actualmente problemas semelhantes em termos de crescimento e de emprego, em particular para os jovens, há duas diferenças significativas que se destacam. A primeira é que, contrariamente a Espanha, a Itália registou uma convergência relativamente menor dos custos salariais unitários face à produtividade. Isso condiciona o potencial da parte negociável da economia enquanto motor de crescimento.

 

A segunda diferença é que a reforma do mercado laboral e a liberalização do mercado em Itália continuam na lista de assuntos pendentes do novo governo do primeiro-ministro Matteo Renzi. Se Itália quiser aproveitar o potencial de crescimento do sector dos bens transaccionáveis da sua economia, deverá manter-se nesta via – seguindo o exemplo de Espanha. Não há qualquer hipótese, em nenhum dos dois países, de a procura interna conseguir suportar isoladamente um crescimento sustentado no curto a médio prazo. Além disso, ambos os países precisam de políticas orientadas para o crescimento, que os ajudarem no processo de desalavancagem.

 

Tal como demonstrou a experiência espanhola, apesar de a flexibilidade estrutural ser difícil de alcançar politicamente, é essencial para um forte desempenho económico. Uma das razões é que é inevitável proceder a um reequilíbrio quando um modelo de crescimento imperfeito deforma a estrutura da economia, em particular o equilíbrio entre os sectores dos bens transacionáveis e dos bens não-transaccionáveis. Uma outra razão é que as forças do mercado tecnológico e global impõem uma mudança estrutural a todas as economias desenvolvidas, mesmo às que não estão desequilibradas. A rigidez presente no sistema interno impede a adaptação e afecta negativamente o crescimento e o emprego.

 

Em termos gerais, as economias bem sucedidas nas últimas três décadas foram aquelas que adoptaram reformas e políticas destinadas a incrementar a capacidade de adaptação estrutural: podemos pensar nos Estados Unidos depois de Ronald Reagan, no Reino Unido depois de Margaret Thatcher, na Alemanha depois de Gerhard Schröder e na China depois de Deng Xiaoping. Espanha parece estar nas primeiras fases da restauração de um modelo de crescimento equilibrado e duradouro. Esperemos que em breve outros países sigam o seu exemplo.

 

Michael Spence, laureado com o Prémio Nobel da Economia, é professor de Economia na Stern School of Business, da Universidade de Nova Iorque, e conselheiro no Instituto Hoover. O seu livro mais recente entitula-se "The Next Convergence – The Future of Economic Growth in a Multispeed World".

 

Direitos de autor: Project Syndicate, 2014.
www.project-syndicate.org

Tradução: Carla Pedro

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