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Frederico Bastião 01 de Fevereiro de 2008 às 13:59

A remodelação de Elgie

Esta semana o nosso engenheiro apanhou o País de surpresa (ou talvez não) e remodelou. Mas esta remodelação não deixa de ser curiosa. É que ao contrário do que sempre tem acontecido, com toda a gente a dizer que houve remodelação e o governo a dizer que h

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E foi então que dei comigo a por-me a mim próprio uma questão muito interessante: porque é que um primeiro-ministro remodela?

Vieram-me logo à memória as explicações de Robert C. Elgie sobre substituições de governantes. Este meu colega, cientista político de renome, fez notar que em França – e nós acrescentaríamos como cá – quando tudo corre bem os louros são do Presidente e quando correm mal a culpa é do Primeiro-ministro, que é então obrigado a remodelar. Claro que, continua Elgie, se as coisas correm demasiado bem e o Primeiro-ministro é elogiado, nessa altura o presidente tem que o substituir a ele.

Voltando ao nosso tema, o objectivo de uma remodelação é aumentar a eficiência do governo. Muito bem, mas esse objectivo é alcançado, ou não?

Um governo é um conjunto de ministros, entidades interdependentes e interagindo entre si, dirigidos pelo Primeiro deles. Numa palavra, um sistema que, como todos os sistemas concebidos pelo homem, é desenhado para funcionar de forma coerente e para atingir um dado objectivo. Mas se é assim, porque há remodelações?

Ora, meus queridos leitores, está provado que qualquer sistema isolado tende para a desordem (caos), e a medida desta desordem chama-se entropia. Mas então o que é o nosso governo se não um sistema isolado, pois nem sequer há oposição? E notem que para um governo a entropia é o caos, pois os ministros não estão de acordo e não conseguem aprovar nenhuma medida.

Qual é a probabilidade de um Governo funcionar, isto é, de a entropia não ser tal que nada é aprovado? Esta questão foi respondida em dois passos. O primeiro foi demonstrado no Postulado de Uátiumi Méliunéte (o PUM), camaronês da Universidade de Fégafe, no seu paper “Political entropy: a smaller government is as beautiful as the prime minister”, publicado na Revue Politique du Keçáfémále. Começa o meu distinto colega por considerar que no Governo existem n ministros além do primeiro-ministro, que cada ministro leva uma medida a Conselho e que todas as decisões do Conselho de Ministros são tomadas por unanimidade. Admite ele ainda que a probabilidade de um ministro qualquer, incluindo o primeiro-ministro, estar de acordo com a proposta de um colega é p. Então, a probabilidade de uma qualquer medida ser aprovada é pn, pelo que não ser aprovada em Conselho é o complementar, (1-pn). Mas isto é a primeira medida, logo não ser aprovada nenhuma das n medidas é (1-pn) vezes (1-pn), vezes (1-pn), etc., n vezes, ou seja, (1-pn)n.

Que significa isto para o nosso País? Temos 16 ministros, além do Primeiro-ministro. Vamos supor que temos um Governo altamente coeso, em que cada ministro concorda com o seu colega a 90%. Neste caso a probabilidade de nenhuma medida ser aprovada em Conselho é de apenas (1-0,916)16=4%, ou seja, é aprovado pelo menos um diploma com 96% de probabilidade, o que atesta um governo eficiente com um baixo nível de entropia.

Mas suponhamos agora que o nosso p, fruto dos inevitáveis atritos em Conselho, perde 10% do valor de ano para ano, o que acontece? Para um p de 81% no segundo ano a probabilidade de não aprovação de diploma nenhum em Conselho sobe para mais de 53% neste ano, e sobe para 82% no terceiro ano, quando p cai para 73%. Chegou a altura de remodelar, pois no quarto ano, na véspera das eleições, a probabilidade de nada ser aprovado é de 99,7% – um governo desgastado e totalmente inoperante.

Fez portanto muito bem o nosso Primeiro-ministro em remodelar ao terceiro ano, pois substitui ministros e volta a elevar o valor de p. Mas este procedimento não pode ser repetido, como resulta do Segundo (geralmente chamado o outro) Postulado de Uátiumi Méliunéte (o Outro PUM): à medida que se fazem sucessivas remodelações, o valor inicial de p não é fixo e tende para zero muito rapidamente. Chegará portanto o dia em que para restaurar a credibilidade do Governo e fazer p=1 o Primeiro-ministro terá que demitir todos os ministros e adoptar a solução Luís Mouzinho de Albuquerque em 1830: passar a Ministro de Todas as Pastas. Não terá ninguém para discordar dele em Conselho de Ministros, o que quer dizer a entropia passa a ser 0. Mas nessa altura ficará a falar sozinho.

rederico Bastião é Professor de Teoria Económica das Crises na Escola de Altos Estudos das Penhas Douradas. Quando “son ami François” lhe perguntou: “Frrederricô, qu’est que tu penses du Ministre de la Santé et du Ministre de la Culture du gouvernement portugais ?” Frederico respondeu: “Laisse tomber!”

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