Jorge Marrão
Jorge Marrão 25 de julho de 2016 às 19:02

A responsabilidade ideológica 

Os partidos capturaram os seus militantes, e estes digladiam-se em táticas conspirativas silenciosas e não em estratégias públicas mobilizadoras.

A FRASE...

 

"É sempre melhor entregar um euro do que tirar um euro. A questão simbólica é muito relevante."

 

Ascenso Simões, Jornal i, 21 de Julho de 2016 

 

A ANÁLISE...

Os números são a versão mais dura da "accountability" dos governos. Sem eles, podemos criar as esperanças dos amanhãs que nos alimentam a alma, mas perdemos a visão do esforço para as concretizar. Devemos 78 mil milhões de euros a credores oficiais (leia-se troika), aproximadamente 13 défices públicos anuais baseados na previsão de 2016. Foram os mercados que tanto se abominam que permitiram que este modelo de redistribuição irresponsável imperasse por décadas. O mercado aí falhou por falta de antecipação; mas a classe política fracassou porque não travou a tempo.

 

A análise política esquecendo esta situação de partida impede uma leitura realista do papel da ideologia numa crise. A tarefa é de salvação nacional. Não há ideologias mais responsáveis do que outras. Há, no entanto, agentes irresponsáveis em qualquer quadrante político. Não é saber quem pode redistribuir mais. Sem os credores externos, dar a uns é sempre tirar a outros. Estamos assim impedidos de investir, porque não temos poupança nacional. Na ausência de controvérsia dentro dos partidos sobre as suas responsabilidades, a democracia degenera, e bloqueia-se a si própria. Os partidos capturaram os seus militantes, e estes digladiam-se em táticas conspirativas silenciosas e não em estratégias públicas mobilizadoras.

 

A chegada de palhaços, nacionalistas, radicais de esquerda e direita é um cocktail proporcionado pelo "establishment". Sem renovação partidária efetiva, o país não se pode reinventar. Enquanto aquela não chegar, preparemo-nos para as cortinas de fumo, debates estéreis e anestesias coletivas. O doente continuará com a sua maleita, mas a acreditar que se irá curar. É uma forma de fazer política.

 

Este artigo está em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

 

Este artigo de opinião integra A Mão Visível - Observações sobre as consequências directas e indirectas das políticas para todos os sectores da sociedade e dos efeitos a médio e longo prazo por oposição às realizadas sobre os efeitos imediatos e dirigidas apenas para certos grupos da sociedade.

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