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Paulo Ferreira pferreira@mediafin.pt 14 de Novembro de 2003 às 10:42

A retoma, enfim

A Europa anda numa vida pouco recomendável: quando está em expansão copia os hábitos da cigarra; quando aparecem as dificuldades só há mãos para cuidar dos feridos e enterrar os mortos.

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Há muitos trimestres que a economia europeia não nos dava tantas e tão simpáticas notícias. De uma assentada, ficámos a saber que a Alemanha e a Holanda saíram da recessão e que a França lhe escapou.

Os números do crescimento até nem são extraordinários: 0,2% na Alemanha, 0,4% em França e 0,1% na Holanda. Precisamos mesmo de uma lupa para ver bem a retoma que ontem nos foi apresentada. Mas, como quase tudo na vida, também a economia é relativa. E perante o ambiente de depressão profunda, generalizada e duradoura, aqueles indicadores têm o efeito de um Prozac.

O crescimento é, de facto, ainda minúsculo. Mas já existe, assinalando que o pior já passou. E, sobretudo, vai afastar a demolidora palavra “recessão” das análises e discursos económicos.

Temos então a Alemanha e a França de novo acima da linha de água. O que não é pouco, porque juntas, as duas economias pesam 56% do PIB da zona euro. Quer isto dizer que estão já ao virar da esquina uns trimestres radiantes, com o sol a brilhar para todos nós? Não. Não se caia na tentação de ter essa ilusão. Como Cristina Casalinho alerta nesta edição, podemos falar de recuperação, mas é demasiado cedo para falar de expansão.

A economia europeia, como a portuguesa, está naquela fase do “copo meio cheio e meio vazio” que vai bem com todas as análises. A retoma está aí, mas ainda é frágil e pouco consolidada. E o seu verdadeiro motor está do outro lado do Atlântico. São os Estados Unidos, com os seus perigosos défices gémeos e com novas ameaças geo-políticas, que estão a puxar o comboio. Isto não acontece por acaso. É que a Europa tem andado numa vida pouco recomendável: quando está em expansão copia os hábitos da cigarra, gasta o que tem e hipoteca o que há-de vir a ter; quando aparecem as dificuldades só há mãos para cuidar dos feridos e enterrar os mortos.

As estafadas reformas, a célebre agenda da Cimeira de Lisboa feita pelo Estado-Maior da Terceira Via, continuam eternamente adiadas à espera não se sabe bem de quê.

As honrosas excepções a esta política de frouxos são, não por acaso, dos países que hoje apresentam a melhor saúde económica: a Espanha de Aznar e o Reino Unido de Blair, que tiveram a coragem de reformar e hoje recolhem os louros.

Temos também o caso atípico do Portugal de Barroso que, contra as indicações dos manuais, avançou para as reformas em plena recessão. O corajoso exercício ainda está em curso e tem diagnóstico reservado.

Agora que já temos a retoma, só falta o mais difícil. Depois de brindarmos à recuperação sem exageros injustificados, o arranque deste novo ciclo de crescimento seria o momento certo para preparar as medidas impopulares que devem ser tomadas quando as economias crescem, para que continuem a crescer. Mas algo nos diz entre brindes frequentes e eleições diversas há-de sobrar pouco tempo para o resto. Se for consciente, esta é uma opção legítima. Assim haja disponibilidade para assumir os respectivos custos.

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