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Sérgio Figueiredo 01 de Outubro de 2003 às 14:41

A retoma hedónica

Se o PIB americano é só marketing, então a destruição de emprego está explicada do ponto de vista económico. E nós estamos fritos. Porque não existe outro motor a funcionar na economia mundial.

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Empregos, câmbio e comércio. Há uma linha a unir estas três variáveis e a dominar o debate económico nos Estados Unidos. Dito desta forma, parece uma conversa inofensiva. Coisas de americanos... Na realidade, trata-se de uma mistura explosiva, um verdadeiro “cocktail molotov” que todo o mundo deveria rezar para que nunca venha a explodir. E porquê? Porque, devido à crise do mercado de trabalho americano, as forças conservadoras estão a conseguir vender com maior facilidade a sua fórmula sedutora, mas absolutamente desacreditada, chamada de “proteccionismo”.

E os anarcas que desfilam contra a globalização estão, subitamente, prestes a ganhar um aliado inesperado: o Congresso dos Estados Unidos. Onde a China está a ser julgada, e deverá ser condenada, como principal suspeita de destruir os empregos dos americanos. Desvalorizar o dólar e fechar as fronteiras é a ilusão que, na vez da prometida prosperidade, vai gerar novas barreiras ao crescimento económico mundial.

A resposta das autoridades norte-americanas pode ser perversa e contraproducente. Mas o problema que a origina existe mesmo: há uma destruição longa e persistente de postos de trabalho nos Estados Unidos, não obstante os sete meses de vigoroso crescimento económico e apesar do optimismo que contagiou as bolsas a partir do segundo trimestre do ano.

A questão é, portanto, nova. Nunca se colocou noutros processos de retoma e não há como explicá-la: como é que uma economia cresce de forma sustentada e a destruir emprego? Sucede que, na economia, normalmente não há enigmas. Os economistas enganam-se sempre no exercício de previsão. Mas depois são formidáveis a explicar as razões do seu erro.

Parte do enigma da retoma americana pode ser resolvida nas próprias estatísticas conhecidas: as despesas militares estão a puxar pelo PIB. A outra parte, aquela que não se vê, foi há cerca de duas semanas desvendada no Financial Times.

A questão é muito técnica, prende-se com os chamados preços hedónicos, mas pode traduzir-se da seguinte forma: é uma ferramenta econométrica, que não é usada na Europa, que corrige o valor ao incorporar os saltos qualitativos do produto.

Parece que o deflator usado no sector das TI’s foi, no último trimestre, de 30%. É, obviamente, um valor arbitrário, que vale tanto como valeria se fosse 20% ou 40%. Mas o seu significado não é inócuo. Porque, sem os preços hedónicos nas TI’s e sem os gastos militares extraordinários, o vigoroso crescimento dos EUA seria, afinal, negativo.

Se assim é, temos então três conclusões possíveis: o PIB americano é só marketing; a destruição de emprego está assim explicada do ponto de vista económico; e nós estamos fritos. Porque não existe outro motor a funcionar na economia mundial. Porque a retoma europeia está refém da pujança dos EUA. E, finalmente, porque a nossa felicidade em 2004 depende do que acontecerá à Europa nos próximos meses.

Ministra prevenida vale por duas: a das Finanças reduziu a previsão para 1%; a de Estado inverteu discretamente o perfil da política económica. Sem exportações, a nossa fezada está agora no investimento.

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