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João Ferreira do Amaral 24 de Abril de 2006 às 14:18

A Revolução Comercial

À medida que a globalização avança, as nossas exportações dirigem-se cada vez mais para os países geograficamente próximos: Espanha, França e Reino Unido. Ou seja, quanto mais a economia se globaliza, mais as nossas exportações se paroquializam.

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Começámos, desde há alguns anos, todos nós, a sentir os efeitos da liberalização do comércio internacional decidida nas últimas negociações do GATT, antes deste se transformar na Organização Mundial de Comércio. Sentimos agora, também, os efeitos do último alargamento da União Europeia.

Começando por este, basta referir que o impacte no destino das nossas exportações tem sido tremendo. Para dar um exemplo, enquanto há apenas cinco anos atrás a Alemanha era ainda o nosso primeiro cliente no que respeita às exportações de mercadorias, hoje é já o terceiro, a seguir à Espanha e à França e, dentro em breve, poderá mesmo descer para o quarto lugar, a seguir ao Reino Unido.

Nada disto seria, em si próprio, preocupante se essa descida de posição se tivesse ficado a dever a um grande aumento das exportações para Espanha e para França. Mas na realidade não foi isso que sucedeu. O que aconteceu foi, afinal, o que já se esperava: a entrada dos países do leste na União Europeia, levou a um importante desvio de comércio que resultou na substituição de importações alemãs de países como Portugal para países como a República Checa, a Polónia ou a Hungria, muito mais próximos dos mercados alemães e produzindo mercadorias que concorrem com as nossas, por vezes a mais baixo preço. Por outro lado, também é certo que não temos conseguido ganhar novos mercados fora da Europa. E, com a excepção de Angola, verdadeiramente as capacidades de crescimento das nossas exportações para outros continentes têm sido e continuam a ser muito diminutas.

Esta evolução leva a um paradoxo que é ao mesmo tempo fonte de enorme preocupação para o futuro. O paradoxo é este: à medida que a globalização avança, as nossas exportações dirigem-se cada vez mais para os países geograficamente próximos: Espanha, França e Reino Unido. Ou seja, quanto mais a economia se globaliza, mais as nossas exportações se paroquializam. Este é um indicador – mais um – de como nos estamos a inserir muito mal na globalização. E, hoje, quem não se inserir bem na globalização, está economicamente condenado.

Um segundo aspecto que gostaria de abordar é o da liberalização e o consequente impacte da China e da Índia no comércio mundial. Hoje já ninguém tem dúvidas que esse impacte traz consigo uma revolução profunda quer na economia quer na política mundiais. O mundo das próximas décadas será, em termos de relações internacionais, muito diferente do mundo que sucedeu imediatamente à implosão da União Soviética. Isto é conhecido. Mas o que normalmente é menos acentuado é que os economistas, neste particular, estão perante uma situação completamente nova, com a qual, provavelmente, a teoria económica ainda não sabe lidar de forma conveniente.

Essa situação nova é a que resulta de, pela primeira vez, duas economias gigantescas do ponto de vista da população (em conjunto, a China e a Índia representam cerca de 40% da população mundial) serem também, cada vez mais, economias abertas ao exterior. As economias grandes (EUA, União Europeia ) tendem a ser relativamente fechadas. Mas não sucede assim na China e em grau progressivamente mais elevado na Índia, países que (em particular a China) têm um grau de abertura já hoje comparável ou até superior a muitas economias pequenas. Mais um vez, este facto irá ter profundas consequências na economia e na política mundiais. Mas o facto é que, verdadeiramente, os economistas ainda não estão preparados para analisar essas consequências.

Seria bom que se preparassem.

 

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