Per Bolund e Reinhard Bütikofer
Per Bolund e Reinhard Bütikofer 07 de março de 2016 às 20:30

A revolução da sustentabilidade nas finanças

São cada vez mais as instituições, a nível mundial, que começam a ter em conta o desenvolvimento sustentável nas tomada de decisões de âmbito financeiro.

Uma revolução tranquila está a ocorrer na indústria financeira. De acordo com o Programa Ambiental das Nações Unidas, o desenvolvimento sustentável está a ser cada vez mais integrado na tomada de decisões financeiras.

A União Europeia adoptou, por seu lado, uma atitude passiva até agora nesta transformação, mas os reguladores financeiros de vários países estão a liderar a mudança. A França introduziu recentemente os primeiros requisitos de divulgação climática obrigatórios para os investidores institucionais. A Noruega está a desinvestir no carbono no seu fundo soberano. A África do Sul incluiu o desenvolvimento sustentável nos requisitos para a colocação em bolsa.

Do mesmo modo, as regulações bancárias no Brasil agora exigem responder pelo risco ambiental. E o governo sueco está a tentar impor uma ambiciosa agenda de sustentabilidade que inclui uma série de propostas destinadas a melhorar a informação para os investidores e a determinar quais os riscos relacionados com o clima que os reguladores e instituições financeiras devem abordar.

A indústria privada está também a mover-se rapidamente. A maior gestora de activos do mundo, a Blackrock, está a lançar um índice livre de combustíveis fósseis, e a Axa, uma das maiores seguradoras do mundo, prometeu deixar de investir no carbono. Enquanto isso, o movimento de desinvestimento está a crescer, com as comunidades baseadas na fé, municípios, celebridades, sindicatos, universidades e investidores institucionais, todos a prometerem afastar-se dos seus activos de combustíveis fósseis. Em conjunto, as instituições com um valor patrimonial de mais de 2,6 biliões de dólares têm estado comprometidas em deixar de investir nos combustíveis fósseis.

A revolução pode ser tranquila, mas está a ficar sonora. As empresas de combustíveis fósseis estão a ser cada vez mais deslegitimadas; o seu modelo de negócio actual é irreconciliável com uma carteira de investimento consciente em termos do clima. Ao mesmo tempo, os investidores estão a começar a entender que prestar atenção aos riscos climáticos é uma parte integrante de uma estratégia de investimento sólida que procura minimizar os riscos e ajudar a promover a estabilidade financeira. O presidente-executivo da Axa, Henri de Castries, tem apoiado tais objectivos, dizendo que desinvestir do carbono ajuda a eliminar o risco das carteiras de investimento e contribui para construir uma sociedade mais sustentável.

O Governador do Banco de Inglaterra, Mark Carney, foi particularmente franco ao sublinhar os perigos que as alterações climáticas colocam aos mercados financeiros. Num discurso no Lloyd’s de Londres, em Setembro, alertou que uma transição demorada para limitar o aquecimento global para 2.º Celsius aumentaria os riscos para a estabilidade financeira. Um conjunto de instituições tem ecoado este aviso.

Enquanto isso, a McKinsey e a Carbon Trust estimam que 30-40% do valor das empresas de combustíveis fósseis estaria em risco devido à designada "bolha do carbono", um excesso de avaliação das reservas de combustíveis fósseis. De acordo com a Agência Internacional de Energia, dois terços destas reservas devem ser mantidas no solo se o mundo quer evitar alterações climáticas desenfreadas, o que implica que as empresas podem não ser capazes de explorar o seu pleno potencial económico. Dado que o sector financeiro europeu investiu mais de um bilião de euros (1,1 biliões de dólares) em activos de combustíveis fósseis, a União Europeia, em particular, corre o risco de uma bolha de carbono.

A questão assumiu tal magnitude que o presidente do Banco Central Europeu, Mario Draghi, pediu que o Conselho Europeu de Risco Sistémico assuma cartas no assunto. Os reguladores financeiros na Suécia, Alemanha, Holanda e Reino Unido estão todos a estudar o impacto das alterações climáticas nos mercados financeiros. O G-20 também pediu ao Conselho de Estabilidade Financeira, em Basileia, para solicitar uma investigação público-privada da bolha do carbono.

No passado mês de Setembro, o comissário europeu, Jonathan Hill, publicou a esperada proposta para a União dos Mercados de Capitais. Mas, ainda que o seu apelo para mercados de capitais mais integrados e diversificados na União Europeia seja admirável, a sua proposta carece de um mapa da rota para a integração do desenvolvimento sustentável no sistema financeiro e de uma estratégia para abordar a bolha do carbono.

O Parlamento Europeu e o Conselho Europeu têm a oportunidade de melhorar a proposta de Hill. O Parlamento já estabeleceu um grupo informal integrado por todos os partidos, chamado Grupo do Carbono, cujo objectivo é encarar a bolha do carbono e promover finanças sustentáveis. E dentro do Conselho, um conjunto de países, nomeadamente a Suécia e a França, estão a trabalhar para uma maior integração de uma métrica de sustentabilidade nos mercados financeiros.

Um conjunto de instituições estão a começar a considerar o desenvolvimento sustentável nas suas tomadas de decisões financeiras. Os responsáveis políticos - especialmente na União Europeia - têm a responsabilidade de impulsionar este tipo de pensamento com visão de futuro e proteger a economia global de qualquer aflição financeira induzida pelo clima.

Per Bolund é ministro dos Mercados Financeiros e Assuntos de Consumo da Suécia. Reinhard Bütikofer é co-presidente do Partido dos Verdes Europeu e membro do Parlamento Europeu.

Direitos de Autor: Project Syndicate, 2016.
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Tradução: Raquel Godinho

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