Benjamim Formigo 20 de outubro de 2006 às 13:59

A Rússia e os benefícios da divisão europeia

Amanhã em Lahti, na Finlândia, os líderes europeus encontrar-se-ão num jantar informal com o Presidente russo Vladimir Putin. O encontro estava previsto desde o Verão, contudo ...

O encontro estava previsto desde o Verão, contudo os Vinte e Cinco foram até ontem incapazes de encontrar uma posição comum perante o líder russo que vai ter a vida facilitada nas suas ambições de acesso ao mercado energético europeu ou, em alternativa, o jantar de trabalho será inconclusivo.

O núcleo tradicional europeu, ou seja os Quinze, vêm a Rússia como um parceiro estratégico de cuja energia necessitam. Cerca de 25 por cento do gás natural consumido na UE vem da Rússia através de um imenso "pipe line" que nem Ronald Reagan conseguiu travar, talvez a única vontade do velho actor-presidente que a Baronesa Thatcher contrariou. Não só do gás mas também do petróleo.

A Rússia por seu turno não se refaz psicologicamente da perda dos seus satélites do Pacto de Varsóvia e torna-se extremamente melindroso abordar questões ligadas particularmente à Ucrânia. Um país chave para Moscovo mas também para a UE pois através dele passa o "pipe line" transiberiano que alimenta parte do consumo europeu.

Quando em Dezembro do ano passado Moscovo decidiu não renegociar o trânsito do gás pelo "pipe line", de cujos proveitos a Ucrânia também beneficia, os Vinte e Cinco estiveram à beira de conhecer uma crise energética se Putin tem mantido o bloqueio. Porém o antigo funcionário do KGB que hoje preside à Rússia conhece a vantagem deste negócio com a Europa.

Se as vantagens são mútuos não haveria em teoria razões para desacordos. Mas Putin tem questões internas que não pode ignorar, como a Chechénia, ou o pretenso ascendente russo sobre a Abkasia e a Geórgia, aproveita os interesses europeus para ultrapassar as linhas de comportamento usualmente aceites pela Europa Comunitária.

Desta vez a UE, alargada aos antigos membros do Pacto de Varsóvia, debate-se com uma posição comum que Javier Solana defende e a que Durão Barroso exorta. O jantar de trabalho foi agendado no Verão e não é estranho à crise entre Rússia e Ucrânia, contudo a União não conseguiu até à reunião dos MNE’s na passada terça-feira no Luxemburgo, encontrar um consenso. O comunicado saído dessa reunião era um compromisso mal disfarçado. Condenava as medidas retaliatórias russas face a Tbilissi e criticava a Geórgia pela presença das suas tropas na região separatista da Abkasia.

A Polónia insiste numa posição "firme e dura" perante o comportamento de Moscovo face aos antigos territórios da URSS e é apoiada pelos Estados Bálticos e antigos membros do Pacto. Paris e Berlim não partilham desta posição, tendo o apoio de Javier Solana, e vêem Moscovo como um "vizinho e parceiro estratégico" indiferentes há muito às violações de Direitos Humanos na Chechénia, que consideram mal documentados. Vladimir Putin pode ser um "vizinho e parceiro estratégico" mas não deixa de ser incómodo o seu comportamento, um comportamento que, sublinhe-se, herdou de Boris Ieltsin.

A questão de fundo, porém, é que a União Europeia deixou, desde a crise de Dezembro de 2005, passar duas presidências e entrou na terceira presidência sem que tivesse definido a sua posição de princípio relativamente à Rússia como "vizinho e parceiro estratégico", e a sua necessidade de acomodar os princípios com o pragmatismo ditado pelas necessidades energéticas e comerciais.

A escassas 72 horas do encontro a Imprensa europeia falava nos desentendimentos e na busca de uma posição comum. Vladimir Putin nem necessita de serviços secretos para saber, quando se sentar à mesa com os seus anfitriões, qual a posição deles e o quanto ela é frágil. Por seu turno Putin não teve de procurar consensos na sua democracia relativa. Sabe muito bem aquilo que quer em troca do acesso de investimentos europeus às reservas energéticas russas: o acesso aos consumidores europeus.

A Rússia de Putin tornou-se incontornável quer no sector energético quer no plano geoestratégico. Se a Rússia se tem de acomodar à nova realidade pós URSS, os antigos satélites da URSS têm de se acomodar à nova realidade geopolítica da Europa. A UE não pode adiar a avaliação das realidades que enfrenta há quase vinte anos nem adiar a definição da sua estratégia face ao Leste europeu. Devia tê-lo feito a Doze, já não seria fácil; perdeu a oportunidade de o fazer a Quinze, ainda era mais difícil. Agora terá de o fazer a Vinte e Cinco, dez dos quais olham para Moscovo com a maior desconfiança. Barroso e Solana parece terem uma missão impossível que não podem adiar se não querem que a UE continue a ser uma minúscula voz que contrasta com a sua importância económica na cena internacional.

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