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A senhora que se segue

A excitação em torno da candidatura de Manuela Ferreira Leite parece-me precipitada. A senhora não tem capacidade de sedução e para mais só parece interessar-se por finanças, coisa que invariavelmente significa mais impostos e menos dinheiro no bolso para

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Isto não é contudo nada que uma pequena brigada de publicitários, um cabeleireiro e algumas ideias avulsas sobre matérias não menos avulsas não possam remediar. O grande problema de Manuela Ferreira Leite não está em como fazer oposição ou como se apresentar alternativa a Sócrates. O seu grande problema será como resistir à oposição interna no seu próprio partido, pois como se sabe a história ainda não acabou.

Aparentemente o PSD tem vindo a sofrer uma enorme fragmentação. Basta pensar como nestes últimos dias se falou de barrosistas, menezistas, cavaquistas, mendistas, santanistas a que se juntaram no espaço de 24 horas os coelhos, os patinhas, os brancos, os rios, os leites, os cadilhistas, numa lista que não pára de crescer. À primeira vista o PSD parece ter hoje tantas tendências quanto militantes. Mas esta fragmentação, derivada da pressa em voltar a mandar, esconde uma realidade mais funda. Na verdade, o PSD não é um partido, mas dois. Um mais civilizado e elitista e outro mais provinciano e populista. Ora acontece que num relativo curto espaço de tempo a facção populista teve o poder para logo o perder de forma desastrosa, mas sobretudo humilhante. Primeiro com Santana Lopes e agora com Luís Filipe Menezes. Pois bem, se Santana nunca perdoou e ainda anda por aí, Menezes não vai parar até conseguir desforra.

No limite, este conflito acabará por dar origem a um novo partido à direita. Numa operação que seguirá seguramente o estilo italiano onde se formam partidos ao sabor das estações do ano. Mas até lá a guerra aberta entre as duas grandes tendências minará qualquer possibilidade de o PSD ganhar crédito. O que, permita-se um aparte, não é nada que me preocupe. Não vejo no PSD, em nenhuma das facções, gente a viver no século XXI. É tudo muito velho, com ideias velhas feitas para um mundo e um País que já não existem.

De qualquer modo, bem mais preocupante é a natureza destas crises partidárias que não são aliás exclusivas do PSD. É que elas revelam o baixo nível do debate partidário, o seu alheamento do mundo, a mediocridade dos intervenientes, o atraso conceptual.

Há um evidente défice de conhecimento nos partidos. Não que os mesmos não tenham muitos doutores e engenheiros, alguns excelentes na sua profissão. Mas há uma falta objectiva de conhecimentos sobre política, sobre gestão social, sobre o exercício da democracia, sobre análise de tendências, sobre dinâmicas de mudança.

Estamos a falar de um sistema, do qual emerge a governação, que não estuda, não reflecte, não analisa a realidade, não prevê o futuro. As escolas para quadros partidários são inexistentes, não se produzem estudos e teses, não se confrontam soluções. A política em Portugal assenta quase exclusivamente no compadrio, na manobra, no “feeling”. Os gabinetes de estudo são prateleiras de opositores. A notoriedade dos dirigentes não advém do saber, mas da conversa fiada e da banha da cobra. O sucesso não nasce da capacidade de realizar qualquer coisa, mas do ilusionismo público e da televisão. Ter jeito para a política ainda se identifica com a arte de aldrabar o próximo e não, como devia, com a capacidade de encontrar soluções para os problemas.

Este amadorismo dos partidos é altamente nefasto. Sabendo nós que são as elites e não o bom povo que determinam o destino de todos, é assustador observar a mediocridade do pessoal partidário e a forma como acabam por chegar a lugares de decisão e poder. Pense-se, a propósito, no provinciano Menezes. Digo provinciano usando a palavra na sua efectiva acepção. Ou seja, alguém que não tem acesso ou não tem capacidade para compreender a informação relevante do seu tempo. Alguém que vive num mundo limitado e se rege por modelos conceptuais igualmente pequenos e limitados. Alguém a quem falta vivência contemporânea.

Seis meses bastaram para mostrar como este homem tem muita dificuldade em compreender a complexidade de muitas das questões actuais, para além de revelar falta de cultura, falta de talento, falta de quase tudo. No entanto, chegou a líder do PSD. Imagine-se que, por qualquer percalço da conjuntura, chegava a primeiro-ministro?

Por isso nunca é de mais repetir. Os partidos têm de mudar, mas não através desse recurso populista, do falar com e para o povo, do ouvir as gentes, como se estas tivessem um dom particular e que hoje resume as propostas de alguma direita e muita esquerda. Nem sequer virando à esquerda ou à direita conforme propõem outros, numa dança sem significado já que baseada em concepções simplistas do que representa hoje qualquer dessas situações e que, diga-se a verdade, em qualquer dos casos significa mais conservadorismo.

A política precisa, sim, de mais conhecimento e inovação. Não são só as empresas, as actividades em geral e a cultura que exigem mais qualificação e criatividade. A política precisa de adoptar métodos de investigação, transparência e exigência, tal como tudo o resto. Não basta uma política da inovação é preciso uma inovação da política. Até porque o amadorismo neste domínio não cria só descrédito para a classe política. Pior do que isso, gera atraso para o País.

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