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Nick Armet 06 de Julho de 2015 às 10:11

A tendência para a atribuição e o papel da sorte no investimento

Senta-se a uma mesa de Blackjack em Las Vegas, as cartas que lhe dão somam 18 e decide pedir uma carta.

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Senta-se a uma mesa de Blackjack em Las Vegas, as cartas que lhe dão somam 18 e decide pedir uma carta. Os outros jogadores olham-no incrédulos, o croupier pergunta-lhe se tem a certeza mas você não desiste e recebe um 3. Sente que justificou, mas que grande decisão! Terá sido? Dada a informação que tinha disponível terá mesmo sido uma decisão acertada ou está a permitir que o resultado obtido o leve a pensar que foi? Para analisar se a decisão é de fato boa ou má, temos de distinguir entre processo e resultado. E esta distinção é crucial quando se investe.

A compreensão das probabilidades e das regras do Blackjack pressupõe que se continuar a pedir cartas quando tem 18 vai acabar muito mais pobre (incluindo as figuras, existe uma percentagem significativamente maior de cartas com um valor elevado num baralho). Pedir uma carta quando tem 18 e perfazer 21 é um exemplo de uma má decisão que leva a um bom resultado apenas por pura sorte. Volte a jogar muitas vezes e repita a jogada e na maior parte das vezes irá exceder 21 e perder.

Quando atribuímos um bom resultado à competência ou a uma boa avaliação, apesar de termos utilizado um processo incorreto, somos culpados de cometermos um erro de atribuição fundamental. Em psicologia, a tendência para a atribuição descreve os erros sistemáticos que as pessoas cometem para avaliarem o comportamento e os atos.

O erro de atribuição fundamental e a tendência para a atribuição a si próprio referem-se à tendência que os indivíduos têm para atribuir os sucessos a competências pessoais mas os fracassos a fatores que estão fora do seu controlo. Resumindo, os bons resultados são atribuídos às boas decisões enquanto os maus resultados são atribuídos à má sorte.

Isto é uma visão simplista e, na realidade, o mundo é mais complexo, com a sorte a desempenhar um papel importante quer no sucesso quer no fracasso. No entanto, negar a existência da sorte faz parte da poderosa crença humana de que vivemos num 'mundo justo', onde os humanos controlam os seus próprios destinos. Isto explica a popularidade de provérbios tais como "criamos a nossa própria sorte".

A sorte também pode desempenhar um papel no investimento, fazendo com que as considerações sobre processo versus resultados sejam essenciais. Se um investidor apanhar uma baixa do mercado, pode simplesmente atribuir isto inteiramente à má sorte, o que significa que não vai aprender com os seus erros. Por outro lado, uma série de bons resultados em parte devido à boa sorte mas conjugada com falta de disciplina no processo pode levar a um excesso de confiança e complacência indevidos que podem refletir-se num assumir de risco ou num número de transações exagerados. Por exemplo, num estudo de investidores de retalho nas contas de corretagem, dois académicos, Hoffman e Post descobriram que quanto mais elevados eram os retornos no período anterior, mais os investidores acreditavam que o seu desempenho recente refletia com precisão a sua competência para investir.

É importante aprendermos com os resultados mal sucedidos e é igualmente importante, quando temos sucesso, não deixarmos que a complacência nos impeça de fazer uma avaliação realista dos pontos fortes e fracos de uma abordagem ao investimento. Investir tem a ver com probabilidades - não sabemos ao certo o que irá acontecer, mas podemos fazer uma série de juízos que são baseados na pesquisa, nos dados históricos, em critérios qualitativos e na análise de cenários de uma série de futuros possíveis.

No investimento, ou em qualquer situação que se baseie em probabilidades na qual as decisões tenham de ser tomadas na incerteza, é essencial ter um processo de investimento bom, sistemático e disciplinado; de outro modo existe o perigo de confundir processo e resultados ao cometer erros de atribuição.

É muito importante reconhecer que até mesmo um excelente processo de investimento irá ocasionalmente gerar maus resultados. Um bom processo é simplesmente um que está mais vezes certo que errado. Temos de aceitar o fato de que qualquer abordagem ao investimento vai em certas ocasiões estar errada, mas não deixar que estes episódios nos afastem se o processo fundamentalmente se mantiver forte. Como a tabela acima mostra, um bom processo pode por vezes traduzir-se em maus resultados, mas no longo prazo, a solidez do processo levará a que, na maior parte das vezes, as decisões se traduzam em bons resultados.

A principal lição a tirar de tudo isto é que os investidores deverão ter como enfoque o processo de gestão e não os resultados. É claro que os resultados interessam, mas o modo como as decisões são avaliadas pode afetar a forma como as decisões subsequentes serão tomadas. Investir implica necessariamente incerteza, por isso, centrar-se exageradamente nos resultados tenderá a encorajar alguns comportamentos que não são os ideais Por exemplo, haverá uma inclinação natural para o enfoque apenas nos resultados que oferecem maior garantia, mas, para muitos objetivos e estratégias de investimento, isto poderia significar que não é assumido o risco suficiente ou que as perspetivas são a um prazo demasiado curto. Haverá também provavelmente um maior grau de aversão ao risco, com a utilização de posições destinadas a minimizar o risco (por exemplo, em títulos de empresas de grande dimensão que constituem uma grande parte do índice) em vez de investir numa posição com total convicção, graças a um processo baseado na pesquisa que encoraja a discriminação entre os investimentos.

Por ultimo, uma das coisas que pode acontecer quando há um enfoque exagerado nos resultados é que se recolhem todos os tipos de informação (tanto útil como inútil) pois esta pode ajudar a explicar uma série de resultados possíveis. No entanto, estudos académicos numa série de áreas diferentes mostram que, para além de um determinado ponto, mais informação não se traduz em maior exatidão. É interessante notar que mais informação tende a aumentar os níveis de confiança mas só é necessário um determinado volume de informação importante - quando combinada com uma profunda visão da indústria e modelação financeira - para formar uma opinião de investimento de elevada convicção. Na prática, só existe normalmente um pequeno número de razões para possuir realmente uma empresa. Para além deste, passa-se rapidamente dos fatores mais importantes para o domínio da informação adicional que é em grande parte fornecida para aumentar o conforto. Esta é uma das razões pelas quais as notas de research dos analistas da Fidelity (que são muitas vezes deliberadamente concisas) se centram numa ou duas razões pelas quais se deve ou não deter um investimento.

Quando se trata de investir há uma citação apropriada que se refere a processo e resultado e que diz que "a sorte é o que acontece quando a preparação se junta com a oportunidade" Podemos parafrasear isto como 'bons resultados do investimento é o que acontece quando um processo sólido se junta com a oportunidade criada pela evolução e crescimento futuro das empresas'. Num investimento, um processo de boa qualidade é o caminho mais seguro para o sucesso num horizonte de longo prazo.


Este artigo foi redigido ao abrigo do novo acordo ortográfico.


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