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Luísa Bessa lbessa@mediafin.pt 09 de Dezembro de 2003 às 16:22

A tentação proteccionista

As medidas contra os têxteis chineses prometem abrir uma nova guerra, apenas mais “leve” do que anterior porque, em vez de aço, agora trata-se de malhas e “soutiens”.

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Novidades pouco animadoras na frente ocidental. Depois da revisão em alta do crescimento da economia norte-americana no terceiro trimestre, os números do emprego arrefeceram o entusiasmo: em Novembro, foram criados 57 mil postos de trabalho, bem abaixo dos 150 mil previstos e dos 135 mil registados no mês anterior.

A retoma americana está em marcha mas os formidáveis ganhos de produtividade alcançados impedem o crescimento do emprego. Há sempre um lado positivo de olhar a realidade?

O dólar prossegue em plano inclinado. Em menos de um ano, perdeu cerca de 15% do valor face ao euro. A Administração Bush reafirma uma política de dólar forte, mas a palavra não condiz com a prática. A Reserva Federal também parece não ver ainda motivos para elevar as taxas de juro.

A queda do dólar é mais uma consequência do gigantesco défice orçamental americano, que passou de um excedente de 237 mil milhões de dólares para um défice de 375 mil milhões em apenas três anos, um desempenho sem igual desde a guerra da Coreia.

E não se diga que o aumento da despesa pode ser exclusivamente imputado aos gastos com a defesa e com o pós-11 de Setembro.

Enfrentar o problema do défice não é tarefa para ano de eleições. Também já ninguém está à espera que tal aconteça em 2004. Os analistas interrogam-se é sobre quando e como poderá começar a ser feito depois dessa data e sobre o preço que vai ter.

Na semana que passou, a administração americana enfrentou o mais sério revés na frente económica. O presidente levantou as tarifas que os Estados Unidos haviam imposto unilateralmente às importações de aço.

A administração esforçou-se por passar a mensagem de que a decisão havia sido tomada independentemente da deliberação da OMC que considerou as tarifas ilegais e autorizou a União Europeia a impor medidas de retaliação. Autorização que a Comissão Europeia se preparava para utilizar com precisão cirúrgica, escolhendo produtos que afectariam em primeiro lugar os estados mais sensíveis para a reeleição de George W. Bush.

Com o levantamento das tarifas ao aço, a administração terá perdido apoio nos estados mais industriais, como a Pensilvânia e a Virgínia, mas evitou uma guerra comercial sem precedentes. Terá aprendido a lição? Não é seguro. As medidas contra os têxteis chineses prometem abrir uma nova guerra, apenas mais “leve” que a anterior porque, em vez de aço, agora trata-se de malhas e “soutiens”.

A guerra do aço teve um vencedor claro: o comércio mundial e o organismo que o tutela. Ficou provado que a OMC não serve apenas para defender os países desenvolvidos, que se apresentam como os arautos da liberalização do comércio, mas que também não hesitam em subverter as regras quando precisam de proteger as suas empresas e os seus postos de trabalho.

Com este desfecho, a OMC reforçou o seu papel de árbitro e a sua credibilidade. Se será suficiente para refrear as tentações proteccionistas é o que se verá nos próximos meses.

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