Outros sites Cofina
Notícias em Destaque
Opinião
Pedro Santos Guerreiro psg@negocios.pt 06 de Janeiro de 2004 às 15:52

A vitória dos alarves e a derrota da Justiça

Os jornais tornaram-se a praça pública da Justiça, onde o povo julga pela sua própria manipulada cabeça. É nos jornais que os alarves apedrejam os supostos culpados, com a ligeireza dos treinadores de bancada, com a sofreguidão dos povos atrasados.

  • Assine já 1€/1 mês
  • ...
Os jornais tornaram-se a praça pública da Justiça, onde o povo julga pela sua própria manipulada cabeça. É nos jornais que os alarves apedrejam os supostos culpados, com a ligeireza dos treinadores de bancada, com a sofreguidão dos povos atrasados.


O processo Casa Pia abriu a caixa de Pandora e de lá de dentro só saem coisas sinistras, malévolas, sombrias. Delação é confundida com honestidade e "intocáveis" passámos a ser todos, não perante a justiça mas ante a devassa.


A desgraça foi os editores terem descoberto o filão das audiências nas ruas das prisões, nas portas dos tribunais, nos gabinetes dos advogados, em processos com pessoas célebres. Daí até ao atropelo de hoje, passou pouco mais de um ano. Agora, com o tempero diário de pequenos crimes (ou de crimes de pequenos), os jornais impressos e televisivos servem de palco confuso para acusações e defesas destilarem contra-informação.


O público quer e compra, os jornais dão e vendem. Este é o círculo vicioso ("vicioso" é a palavra incomodamente certa para o caso) que derrota a Justiça e, afinal, a democracia. É uma regressão para a Idade Média, um terceiro-mundismo de broncos. De larvas em maçãs podres, de ratazanas nas imundícies.


Os processos do DIAP circulam abundantemente nas redacções dos jornais, acompanhados de improváveis listas de notáveis e de cartas anónimas prontas a servir. As cópias circulam e são esquecidas em cima das fotocopiadoras. As funcionárias de limpeza topam-nas e levam para as vizinhas lerem.


É nesta fantochada que está o segredo de Justiça, com a complacência nervosa de um Governo que se algemou para que as suas decisões não sejam entendidas como reacções a casos específicos. E, afinal, são os homens da Justiça que a estão a fazer nas ruas.


A verdade é que dar cabo da vida a um inimigo de estimação parece facílimo. Inventa-se um crime hediondo – daqueles que despertam nas pessoas um nojo visceral – e difunde-se anonimamente ou por interposta pessoa o envolvimento desse homem.


Os jornais escarrapacham sem grande critério ou consciência, os advogados falam sobre o caso et "voilá": a vida do inimigo, dos seus filhos e mulher está garantidamente desfeita. Vitória do detractor. Derrota nossa. E não se engane: isto pode acontecer-lhe a si.


Eu, que sou crente e não sou crédulo, não acredito em nada do que nos é servido todos os dias às 20 horas.

Mais artigos do Autor
Ver mais
Mais lidas
Outras Notícias