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Fernando Braga de Matos 29 de Maio de 2009 às 11:48

A volta ao mundo em 80 minutos

Onde o autor, longe do tempo do Phileas Fogg, por um lado, mas também do capitão Kirk, por outro, lembra que, no cyberespaço bolsista globalizado, os 80 minutos são para a reflexão e o resto corre num ai, de Lisboa a Hong Kong, com...

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Onde o autor, longe do tempo do Phileas Fogg, por um lado, mas também do capitão Kirk, por outro, lembra que, no cyberespaço bolsista globalizado, os 80 minutos são para a reflexão e o resto corre num ai, de Lisboa a Hong Kong, com partida em Nova Iorque, na busca perene da Tendência - caindo na questão filosófica: Onde estamos? Para onde vamos? (e coisas assim).

No dia 11/3 deste corrente ano escrevi, neste sítio, aqui uma crónica que baptizei com o venturoso título: "11/3 Dia da Viragem?". E, realmente, não sei se por eu ter dito ( mas presumo que sim) as bolsas pelo mundo todo subiram, em menos de três meses, cerca de 40%, o que, como média, é rigorosamente fabuloso.

Esclareço que o início da subida se situa no dia 9, mas, no meu entendimento, o arranque foi mesmo a 11 de Março, o da subida a jacto das acções do sector bancário e, por arrastamento, tudo o resto - quando o Citybank reportou fartos lucros no 1º trimestre, em vez de prejuízos. O globo foi contagiado em todo o lado, mesmo na incipiente bolsa do Iraque.

É típico, nas recuperações ditas em "V", a propulsão do arranque acontecer por um específico facto. Já o último Bull Market, o de 2003-2007, tinha tido como rastilho a entrada em Bagdad pelas tropas americanas, em 9 de Abril de 2003, num cadinho de recuperação económica até já iniciada.

E agora, Evaristo, como vai ser isto?

Esta questão está mais que analisada, quase tanto como o caso Dias Loureiro (1). Mas uns pontinhos de enquadramento e uma ênfase aqui e acolá podem ser de interesse, vendendo mais dois ou três jornais.

Claro que temos de viajar até aos Estados Unidos, para estabelecer perspectiva, mas iremos também a outros lados, na nossa volta ao mundo.

O primeiro ponto que nos deixa a reflectir é a extensão da subida, coisa quase nunca vista em início de Bull Market . Se estivesse no fim, em "bolha" especulativa, nada a dizer, seria monotonamente semelhante a muitos casos que só surpreenderam os neófitos com febre do ouro. Para causar arrepios, durante a Grande Depressão, um ano após o "crash " de 1929, ocorreu, igualmente, uma fulgurante recuperação que, segundo historiadores da época, induziu uma grande massa de investidores a pensar que o mau tempo tinha passado. Depois, veio a verdadeira avalanche, em dois anos de queda de cotações, que atingiu 60% para além da despoletada em Outubro de 1929.

Eu diria que, agora, será diferente, e não é para ser diferente dos outros, que, afinal, também dizem que será diferente(2). Mesmo que seja assim, a questão subsequente é saber se estamos em Bull Market ou se, por agora o que temos é uma pausa/correcção.

Como nessa crónica que referi acima, é interessante ver como vai reagindo o mercado às notícias claramente boas ou más, isto é, se com reflexo ajustado ou antes com hiper-reacções, para cima ou para baixo.

Já correram rios de sangue o que , para efeitos de recuperação, é, paradoxalmente, uma boa nova - isto numa permanente adesão ao chamado "pensamento contrário". Mas, no momento mais um menos certo, os investidores mais aptos denunciam o seu optimismo em fortes compras, as do arranque. (Daí o mérito daquela análise das notícias).

O início da semana foi importante nisto: O ensaio nuclear pela Coreia do Norte pôs as bolsas no vermelho, mas, no próprio dia, a nova sobre um clara melhoria nos Índices de optimismo dos consumidores, colocou tudo no verde, com claro vigor. Na 4ª feira, dia em que escrevo, saiu a noticia sobre um hipotético abaixamento do rating dos Estados Unidos , de triplo A, pelo que o mercado da dívida de longo prazo caiu, e as bolsas de acções em concomitância, até num anómalo movimento de simpatia. No Dow, foram 2, 07%. Mas a Europa, no geral, sendo mais tardia, fechou unanimemente positiva. (Na sexta-feira, dia da publicação, já se verá melhor o que se passa neste domínio, mas cheira-me a que, sem mais notícias penosas, não cairemos sequer no amarelo).

Com isto, o Índice de volatilidade, o meu estimadíssimo VIX, subiu para cima dos 30, barreira importante. Para nos situarmos: Desde há 5 anos para cá, o Vix, só subiu além dos 20 com o início da crise "subprime", em Agosto de 207, bateu 3 vezes os 30 e saltou para os 80 (arre, gaga!), no "crash" de Setembro 2008, com a falência do Lehman. Por aqui ainda não estamos bem.

Outro ponto a reparar é a queda dos volumes de transacções, principalmente na Europa. Sendo este o combustível de que se alimenta a subida das cotações, esperar subidas , pelo menos a curto prazo, será demasiado optimista. Os indicadores de "moneyflow" baixaram, quase evidentemente, mas sem indicar alarme. Esperemos que seja mesmo apenas uma questão de tomada de mais-valias.

Por sua vez, os indicadores de "momentum" já estão, naturalmente, a retrair-se, desde Abril, pois a velocidade era muito forte. Situam-se agora numa zona neutral, o que até nem é mau.
Mais para olhar será a famosa média móvel dos 200 dias que, para muitos, desenha a fronteira do Bull Market, pelo menos convencionalmente. Pois o Dow ainda precisa de mais Centrum, mas o Nasdaq100 já lá chegou, o Footsie e o Nikkei estão no ponto, e os Índices da China, Brasil e Índia, treparam bem acima.

E já que chegamos a estes pontos exóticos, como vai a luxuriante Índia, no plano "notícias-e-sentimento", de que eu gosto tanto? Pois , com a eleição de Singh(3), o Sensex subiu 17% num só dia ! É mercado emergente, mas ainda não consegui fechar a boca.

"OK, OK, mas então o que se vai passar?" - dir-me-ão. Se eu soubesse mesmo, já me tinha tornado num excêntrico e comprado o Barcelona.



(1) Finalmente lá saiu!
(2) A palavra "diferente" tem karma - disse-me o meu vidente em bolsa-tarot.
(3) Pai das reformas na Índia que meteram o socialismo na gaveta, desde 1991, primeiro, no partido Janata de Direita, mas, depois, no tradicional partido do Congresso, de esquerda. O consenso das forças democráticas quanto ao reformismo de mercado assegura a continuidade do grande progresso da Índia. (Vendo bem, os ditos 17% ainda serão pouco, se calhar.)


Advogado, autor de " Ganhar em Bolsa" (ed. D. Quixote) e "Bolsa para Iniciados" (ed. Presença)
fbmatos1943@gmail.com
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