Baptista Bastos
Baptista Bastos 19 de abril de 2013 às 09:57

Agora, para aonde vamos?

Consta por aí que foi Selassie, chefe da troika, quem ditou a carta, "assinada" por Passos, e destinada a Seguro, para o encontro de quarta-feira, entre os dois dirigentes partidários.

Consta por aí que foi Selassie, chefe da troika, quem ditou a carta, "assinada" por Passos, e destinada a Seguro, para o encontro de quarta-feira, entre os dois dirigentes partidários. Os procônsules sabem do desprezo que o primeiro-ministro tem demonstrado, sem a mínima preocupação em o ocultar, pelo dirigente do PS. Desde Dezembro que Passos voltara as costas ao socialista, por considerar desnecessários quaisquer contactos, aproximação ou "diálogo". Sabe-se que o primeiro-ministro, muito apoiado pelo Dr. Cavaco, desdenha partilhar com alguém (até com Paulo Portas) as ideias, que amiúde lhe não pertencem em exclusividade, incluem-se no convívio com Vítor Gaspar, convencido de que está no "rumo certo" e de que a sua verdade é única e admirável. Tem-se visto.


Mas esta barafunda confunde os procônsules que aqui vêm apenas para garantir o retorno dos empréstimos. Na verdade, e convém que o não ignoremos, eles são caixeiros-viajantes da loja de penhores do Banco Central Europeu, sobretudo, que aufere rios de dinheiro com os abonos feitos aqui e ali, neste caso a Portugal. Eles já haviam manifestado inquietação com a birra de Passos em não ir sequer tomar café com Seguro, cuja amenidade e melíflua compreensão tanto admiram. Foi perante esta teimosia, decorrente do temperamento ególatra e autoritário de Passos, que a troika impôs o encontro.


Tratou-se, evidentemente, de um ardil. Passos sabia muito bem que Seguro não podia correr o risco de voltar atrás com as suas decisões, pois não só ficaria mais depreciado do que está, como arrastaria o PS para o abismo. Seguro, ultimamente mais aguerrido, acaso devido ao mal-estar no interior do partido, ao reaparecimento de Sócrates, e à renovada energia de Soares, estava num aparente beco sem saída. Fez o que, na realidade, era impossível deixar de fazer: disse a Passos que não renunciava um centímetro do que afirmava, o mesmo, mais ou menos, declarou à troika. Safou-se, momentaneamente, mas o seu caso está longe de resolvido. A questão não é, apenas, de carácter: é ideológica; e o conceito que Seguro tem demonstrado de socialismo deixa muito a desejar.


Por outro lado, Passos valeu-se deste impulso para afirmar, à puridade, que a associação estratégica com o PS não se fizera porque o PS assim o entendeu. O Dr. Cavaco, a caminho da Colômbia, patenteou aos jornalistas, ainda no avião, um infinito contentamento com o encontro, cujo resultado ainda lhe era desconhecido. Confidenciou que tinha conhecimento antecipado desse encontro, insinuando que o apadrinhara, com júbilo e prazer.


Na "conferência" de imprensa com jornalistas, o secretário-geral do PS nada acrescentou ao que era evidente. A questão central, agora, é tomarmos conhecimento dos posteriores desenvolvimentos políticos de uma situação não só inquietante para o Governo, como embaraçosa para o PSD.

 

José Correia Tavares e o gosto do sarcasmo


José Correia Tavares é um homem de fibra, um grande carácter e poeta distinto, cuja lira vai às fontes tradicionais para reflectir sobre o que se passa agora e por aqui. O sarcasmo com que envolve a sua "ars poetica" filia-se, no entanto, numa grande ternura e numa compassiva compreensão pelos outros. Toda a sua obra reflecte a estatura ética do autor e o conhecimento das nossas mais profundas raízes culturais. Publicou, agora, "Olhando as Margens", uma belíssima selecta de quadras, género em que é mestre. Correia Tavares será "um letrado português" no sentido que se costuma atribuir ao homem culto; mas só nesse: não no conceito depreciativo usado por Bocage e tão vivamente escarnecido por Alexandre O'Neill. E é, sobretudo e antes de qualquer outra definição, um grande poeta.

 


b.bastos@netcabo.pt

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