Paulo Carmona
Paulo Carmona 19 de fevereiro de 2018 às 20:30

Ai se eu fosse jovem…

O atual sistema de ensino permite só às famílias de maiores rendimentos escolherem a que consideram ser a melhor escola para os seus filhos, entre públicas e privadas, desnivelando a igualdade de oportunidades com base na origem social.

A FRASE...

 

"Com salários menores, menos bens, mais dívida e em maior risco de pobreza. Este é o retrato feito pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) sobre os jovens europeus."

 

Relatório FMI, Observador, 25 de janeiro de 2018

 

A ANÁLISE...

 

Em termos de desigualdade social, a Europa surge muito bem classificada no índice de GINI, Portugal incluído, por volta dos 30%. Apesar disso, num recente estudo da Universidade de Harvard, citado pelo Economist online de 14 de fevereiro, os países europeus acreditam serem mais desiguais do que realmente são. Claro que muito há ainda a fazer, mas somos claramente o continente com menor desigualdade social.

 

Portugal tem tido uma trajetória descendente no coeficiente de desigualdade social que nem a crise de 2010/2014 reverteu. Há, no entanto, muitas desigualdades internas, especialmente geracionais, em linha com um estudo recente do FMI sobre as perspetivas económicas dos jovens europeus.

 

O sistema social europeu foi construído sobre o "boom" do pós-guerra, com esquemas de proteção do emprego e da segurança social pensados para um crescimento económico e demográfico, que acabou. O atual crescimento, com ênfase na produtividade do trabalho, por introdução de inovações tecnológicas e de processos cria menos necessidade de emprego, e sobretudo daquele menos especializado.

 

Com menos emprego criado e uma justa e forte proteção dos trabalhadores face ao despedimento, sobra a injustiça da precariedade para os mais jovens, mesmo mais competentes e preparados. Em cima disso têm o ónus da dívida contraída pelo Estado, durante e depois de vender todos os seus bons ativos, que os mais velhos contraíram nos últimos 20 anos. Dívida pública que são impostos futuros das próximas gerações. E mais impostos serão necessários para pagar um défice crescente do sistema de pensões. E quando lá chegarem, a pensionistas, só irão receber uma pensão de 30% do último salário.

 

Além da precariedade do trabalho, da promessa de mais impostos no futuro, a desigualdade de oportunidades. O atual sistema de ensino permite só às famílias de maiores rendimentos escolherem a que consideram ser a melhor escola para os seus filhos, entre públicas e privadas, desnivelando a igualdade de oportunidades com base na origem social, a bem do ensino público e seus agentes que recusam a descentralização ou experiências como o cheque-ensino.

 

Os jovens são o futuro, mas cada vez mais uma minoria dos votos.

 

Artigo em conformidade com o novo Acordo Ortográfico 

 

Este artigo de opinião integra A Mão Visível - Observações sobre as consequências directas e indirectas das políticas para todos os sectores da sociedade e dos efeitos a médio e longo prazo por oposição às realizadas sobre os efeitos imediatos e dirigidas apenas para certos grupos da sociedade.

maovisivel@gmail.com

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